Entrevista com 47Soul: Afirmar a Palestina pelo mundo

PT | EN

São uma das mais aclamadas bandas da diáspora palestiniana, pioneiros de um estilo musical que ficou conhecido como Shamstep, que mistura hip-hop com elementos de música tradicional árabe e outros sons, como o reggae. Os 47 Soul formaram-se em 2013, na Jordânia, e desde aí lançaram os álbuns Shamstep, Balfrom Promise e Semitics, e deram concertos por todo o mundo, sempre com letras contundentes que afirmam a cultura palestiniana e denunciam a ocupação israelita e o genocídio. Nos bastidores do Festival de Músicas do Mundo de Sines, onde encerraram o programa do Castelo, Hamza Arnaout e Taraq Abu Kwaik falam-nos de música, da causa palestina e da imparável roda trituradora do capitalismo


No seu mais famoso poema Marwan Makhoul diz: “Para eu escrever poesia que não seja política/ tenho de ouvir os pássaros/ e para ouvir os pássaros/ os aviões de guerra têm de estar em silêncio. Passa-se o mesmo com a vossa música?

Hamza Arnaout: Sim, sem dúvida. Já pensámos que seria bom escrever sobre borboletas e chupa-chupas. Mas esse outro sentimento está lá. Para nós a música é uma solução. E para propor uma solução tem que haver um problema.


Mas gostavam de um dia conseguir escrever sobre outras coisas?

Hamza Arnaout: Sim, mas isso é utópico. Haverá sempre outros problemas. Qualquer canção vai falar sobre uma emoção, e as emoções são reflexos do que nos rodeia, por isso acaba por ir dar ao mesmo. A música para nós é como um medicamento.


Qual o papel da música no combate ao genocídio? O que é que a música, ou a arte em geral, pode fazer?

Hamza Arnaout: Estávamos a falar disso com um amigo nosso na Bélgica há dois dias. A cultura pode ser a arma mais forte que temos para espalhar a mensagem. Acredito muito na importância da cultura, da música,  da dança  como formas de cimentar a nossa identidade. As pessoas constroem pertença através da música e da cultura.

Tareq Abu Kwaik: Antes do genocídio achávamos que estávamos a espalhar a mensagem sobre o que acontece na nossa terra. Agora passou a ser uma necessidade para a nossa identidade. Não queremos ser apagados. Porque parece que tal pode mesmo acontecer. E isso é muito assustador.


Em festivais como este erguem-se bandeiras da Palestina no público e quase todos os músicos que sobem ao palco denunciam o genocídio. Toda a gente aqui já está convencida e chocada com o que está a acontecer, mas é difícil chegar às outras pessoas que podem fazer alguma coisa…

Hamza Arnaout: O mundo inteiro está a viver numa bolha, no sentido em que vemos estas imagens nas redes sociais e nas notícias, e não conseguimos fazer nada a partir de longe.

Tareq Abu Kwaik: Mas há uma grande diferença entre uma, duas ou três bandas subirem ao palco e falarem da Palestina, e todas as fazerem isso. Vivemos num tempo diferente. Isso coloca os artistas palestinianos a questão de o que fazemos pode não ser o suficiente. Para nós é mais complicado. Há uma ocupação e a ocupação tem de acabar. Mas há outras questões sobre o destino de um povo. Quando pensas nisso, há coisas relacionadas com mentalidade, filosofia, religião… Temos de elevar a conversa para um nível mais alto de humanidade. Talvez agora seja uma oportunidade. Estamos vivos 


Falando um pouco de música: vocês fazem uma fusão entre diferentes tipos de música e eletrónica. Qual é o vosso caminho? E o que tentam fazer de diferente de disco para disco, mantendo esta mensagem importante?

Tareq Abu Kwaik: A nossa música é influenciada pelos géneros de música popular electrónica da Palestina e do Levante. Não os estilos muito antigos com instrumentos tradicionais, mas a versão contemporânea, com  teclados japoneses a tocar esses sons. Então usámos analógico e quisemos experimentar: como partir daí e entrar noutras partes que reflitam estilos diferentes.

Hamza Arnaout: E misturar isso com outras músicas, porque somos influenciados por tudo — do rock ao hip-hop.. E, enquanto músico, tenho sempre aquela vontade de trazer para dentro isto, de coloco neste contexto outras músicas que também gosto


Essa pode ser também uma ideia política: tal como vocês misturam culturas na música, todas as culturas podiam dar-se bem e viver juntas.

Hamza Arnaout: Nós procuramos sempre semelhanças,  temas que são partilhados em lugares diferentes, melodias, ritmos que soam familiares a outras pessoas.

Tareq Abu Kwaik: Acho que, no nosso caso, não estamos a tentar dizer::“Olhem, dá para misturar estas coisas e funciona.” Estamos antes a dizer: “Olhem, estas coisas eram originalmente as mesmas.”


E por que cantam em inglês, é para que a mensagem chegue a um público maior?

Tareq Abu Kwaik: Começámos a cantar em inglês devido ao facto de um dos nossos membros ter crescido nos Estados Unidos. A diáspora palestiniana alarga-se por todo o mundo. Somos de uma geração que já sabia que não fala árabe, mas é culturalmente palestiniana  ou árabe. Por isso tentamos criar uma ponte entre a diáspora e a nossa terra. É genuinamente bilingue, embora também queiramos que a mensagem chegue a todos..


No Reino Unido, onde parte da banda vive, baniram a Palestine Action, acusando-a de terrorismo. Como é que os movimentos de solidariedade estão a ser apoiados ou silenciados em Inglaterra?

Tareq Abu Kwaik: Não sei o que os media ocidentais querem dizer quando usam a palavra “terrorismo”. Não sei qual é a definição deles. Por isso fiquei surpreendido por dizerem isso sobre essas pessoas. São manifestantes pacíficos que fazem concentrações junto a empresas de armamento. 

Hamza Arnaout:: Pode dizer-se que terrorismo é matar centenas de milhar de pessoas. Terrorismo é deixar crianças morrer à fome. Então a questão é: o que é que define isso? O que é terrorismo? 


Há uma tragédia a acontecer em Gaza que continua a agravar-se,. Ainda têm esperança? Esperança de que um dia possam cantar sobre outra coisa, porque o problema foi resolvido?

Tareq Abu Kwaik: Não penso tanto em esperança mas antes em fazer a minha parte. Mas a esperança está sempre lá, porque ajuda-nos a sobreviver.

Hamza Arnaout: Mas será esperança ou fé? Esperança é acreditar que as coisas vão ser resolvidas nesta terra. E nós sabemos que a natureza humana é assim: um problema transforma-se noutro. Se o nosso problema for resolvido, haverá outro problema noutro lugar do mundo. Mas nós, pelo menos, temos fé:  se praticares o bem, serás recompensado e não serás esquecido. 


A agressão contra a Palestina tornou-se global?

Tareq Abu Kwaik:: O facto de agora pessoas no mundo inteiro falarem da Palestina — até miúdos no TikTok, pessoas comuns, não só as mais politizadas — é muito significativo. Dizem-se  coisas que, há 20 anos, estariam para lá dos meus sonhos mais loucos. Quando expúnhamos estes problemas no Ocidente, soávamos como teóricos da conspiração: Tínhamos que explicar tudo. Agora já não é preciso explicar nada. Isso cria alguma capacidade mental e espaço para olhar para o que podemos construir. Mas, claro, enquanto falamos, o genocídio está a acontecer. Essas conversas precisam ser escritas e ditas. E a ação direta é a parte frustrante. O que pode ser feito? O mundo inteiro vota a favor de sanções na ONU, mas não serve de nada, porque  Israel e os Estados Unidos têm poder de veto. E sabemos que pessoas boas no mundo inteiro querem que isto acabe. E também há israelitas e americanos a dizer que isto tem de parar. E mesmo assim não para.
Essa parte é assustadora, porque sugere que o sistema capitalista  está montado de uma forma em que a máquina do dinheiro domina sobre tudo e todos, ninguém a consegue parar.


Imagino que a maioria das entrevistas como esta falam sobretudo sobre a Palestina e não tanto sobre música. Isso incomoda-vos?

Hamza Arnaout: [risos] Antes incomodava, agora já não. Há sempre uma parte de ti, como músico, que quer falar de música. Mas eu não diria que isso me frustra, porque prefiro ter uma mensagem na minha música do que ter música sem mensagem. Mesmo quando a Palestina for livre vamos estar a falar de outra coisa. É assim que nós somos. As coisas que discutimos, os temas que nos importam, não são só a Palestina.
Quando olhas para o sistema legal na América, o que se passa com as pessoas negras, encontras muitas semelhanças com o que acontece com os palestinianos. Vamos sempre procurar novas causas.

Escreve aqui o teu texto…

PT | EN

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *