A condição humana no cinema centro-asiático em Bishkek

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O Bishkek International Film Festival, no Quirguistão, com apenas quatro edições, afirma-se como um dos mais importantes festivais da Ásia Central e serve de barómetro para avaliar o estado da arte do cinema daquela vasta região.

Este ano, a competição centro-asiática, que evitou selecionar filmes já apresentados em grandes certames, caracterizou-se por um volume esmagador de primeiras obras e pelo predomínio de um cinema mais comercial, em detrimento do chamado arthouse cinema ou cinema de autor — classificações que valem o que valem e não têm, necessariamente, uma implicação direta na qualidade das obras. De resto, é sintomático que, na cena final de Restart, de Durman Erkimbek, o filme cazaque que ganhou o principal prémio da competição, o público tenha aplaudido a chegada do herói — extraordinário sinal de vitalidade do cinema enquanto arte popular.

Na seleção de filmes, de nacionalidades diferentes — com domínio do Cazaquistão e do Quirguistão —, mas de países geográfica, cultural e afetivamente próximos, encontram-se temáticas recorrentes, por vezes quase transversais, através das quais se podem inferir, ou pelo menos supor, grandes inquietações sociológicas.

O campo e a cidade

A dialética campo/cidade é recorrente nos filmes, mas nenhum a eleva a um nível tão explicitamente político como Kaskaldak, de Yervant Sabitov, do Cazaquistão, uma das obras mais belas em concurso. O filme começa por contar a relação de um pai com um filho especial, desenquadrado no seu meio e especialmente frágil, para terminar com um discurso político forte e contundente, que acusa, sem papas na língua, os governantes de deixarem morrer as aldeias. O discurso é tão declaradamente político, e a mensagem tão clara, que quase coloca o filme no domínio do cinema panfletário.

Aliás, talvez o melhor do filme seja mesmo o genérico final, em que se mostra a vivacidade das aldeias antigamente, através de imagens de arquivo, em contraste com as aldeias isoladas e depois evacuadas dos dias de hoje. Numa cena anterior, um irmão tenta convencer o pai a mudar-se para a cidade. E, a partir daí, percebemos a força da sua resistência, até ela arder de forma quase literal após um incêndio. A mensagem explícita fez com que o governo do Cazaquistão não lhe atribuísse a licença de exibição, pelo que o filme não pode ser visto dentro do próprio país.

Em Karabuzhir, de Kenzhebay Dyussembayev, também do Cazaquistão, há alguém que se pergunta se as pessoas da cidade não precisam dos alimentos que vêm do campo; de que se alimentarão os citadinos quando já não houver aldeões nem agricultores? Mas este não é o tema principal do filme. Fala antes da relação de uma mãe, em segundas núpcias, com um aldeão de feitio agreste e violento, que maltrata o enteado. O busílis do filme não está no facto de ele ser um homem do campo, mas na sua violência extrema, para além de todos os limites. É, de resto, um filme cheio de fragilidades, começando pela falta de densidade psicológica das personagens.

Restart, também do Cazaquistão, aborda a questão pelo lado positivo. O adolescente citadino, que odeia a vida no campo, vai aprendendo a gostar da aldeia, descobrindo os seus encantos. Ou seja, o filme é quase apologético do êxodo urbano, revelando que a vida no campo está mais próxima da essência.

O grande motivo do êxito de Restart é o seu dispositivo narrativo, que imita filmes como Groundhog Day / O Feitiço do Tempo (1993), de Harold Ramis, ou Run Lola Run / Corre, Lola, Corre (1998), de Tom Tykwer. O rapaz repete sempre o mesmo dia até cumprir o objetivo de salvar a aldeia de uma inundação, provocada pela quebra da estrutura de uma barragem após um terramoto e pela incúria do poder local. No fundo, alegoricamente, o rapaz está a salvar as aldeias de que fala Sabitov em Kaskaldak. Pena que o argumento seja mal cozinhado, cheio de lugares-comuns e buracos narrativos.

A dialética campo/cidade está presente de forma mais discreta em The Final Stretch, de Avtandi Batyrbekov, do Quirguistão, que funciona quase como uma fábula infantil. Mas aqui serve sobretudo para expor as consequências drásticas do isolamento, sem indicar a alternativa do êxodo rural. O filme, de enredo muito previsível e emoções à flor da pele, conta uma história épica de um cavalo de corrida. O cavalo, de resto, é eximiamente dirigido e muito contribui para o final épico.

Tratem-nos da saúde

O isolamento em The Final Stretch torna-se flagrante no caso extremo da saúde, quando o pai descobre que não há meios nem dinheiro para operar a filha, que tem um problema cardíaco. Exalta-se e acusa o médico — e o Estado — de quererem matar a sua filha, depois de já terem matado a mulher, com cancro, e o pai, com um enfarte.

Uma coisa que aprendemos nesta competição é que não faz mal gritar com os profissionais de saúde: podemos fazer deles bodes expiatórios. Em Kaskaldak, a personagem exalta-se ao perceber que, devido a um nevão, as autoridades sanitárias não poderão entregar os medicamentos para a mãe, e quase morre a tentar ir buscá-los. Em Shamisqamar, de Nusrat Khusanov, do Uzbequistão, a mulher imagina-se a esmurrar a médica que sugere que faça um aborto depois de saber que terá um filho com síndrome de Down. Curiosamente, em Only Heaven Knows, de Nazhamal Karamoldoeva, um dos melhores filmes em competição, do Quirguistão, também se pergunta à mulher se quer ficar com o filho, que é saudável. Mas ela não se exalta em demasia. O filme passa-se na América e os hábitos são outros.

Quem vai e quem fica

Another Birth, filme da realizadora tajique Isabelle Kalandar, a quem o júri da FIPRESCI — que integrei — atribuiu um prémio, também fala de isolamento e abandono, mas de outra forma. É o retrato de uma aldeia não necessariamente isolada, mas de onde os homens partiram. Um filme-poema, com uma fotografia extraordinária, que consegue criar uma verdadeira arte visual, num dos raros trabalhos que se podem enquadrar como cinema verdadeiramente autoral. É como um daqueles filmes de guerra que falam de quem fica: as mulheres, as crianças, os idosos. Mas mostra-nos aquele mundo através do olhar de uma criança que não tem todos os instrumentos para o compreender. Uma obra extraordinária, protagonizada por atores não profissionais, incluindo familiares da realizadora. Isabelle Kalandar já está a preparar os dois outros filmes que completarão a trilogia. O próximo será sobre a inevitabilidade de partir.

O reverso da moeda talvez seja Fate, de Dastan Medalibekov, do Quirguistão, em que acompanhamos, de forma subtil, o regresso de um homem que emigrou/fugiu para a América e que agora quer encontrar-se com o filho que abandonou. É um filme com debilidades formais, mas com algum engenho no argumento.

O ponto de vista do lado de lá é dado por Only Heaven Knows. Todo o filme decorre na América, dentro da comunidade quirguiz, que reproduz os rituais da tradição. É como se nos desse a oportunidade de perceber o que se passa desse outro lado, mas num contexto mais contemporâneo, em que a mulher também emigra e a América é o destino preferencial — em Another Birth, seria a Rússia. Tal como a protagonista de Another Birth, Mira é, de alguma forma, abandonada pelo marido, que a deixa com a sogra, que a trata mal, enquanto viaja de camião pelo país. O marido é um jogador inveterado, que acumula dívidas que não consegue pagar. O filme fala-nos da condição humana, transformando subtilmente a mulher em protagonista, com uma interpretação magnífica de Malika Kanatova. Uma obra muito promissora de cinema independente.

Um mar de dívidas

O endividamento é também um dos temas recorrentes dos filmes. Em Only Heaven Knows, atinge a dimensão mais trágica. Mas apresenta também consequências extremas em The Final Stretch: o endividamento faz com que percam tudo, incluindo o cavalo. Está igualmente presente em Fate, de forma um pouco mais suave, e falta de dinheiro e as dívidas sevem para intensificar os gesto do protagonista. E ainda em Backstage Madness, de Amanbek Azhymat, do Quirguistão, uma comédia tarantiniana com momentos hilariantes, que faz jus ao género, mostrando-nos gangsters patuscos a cobrar dívidas. É o filme mais fora da caixa. Usa um dispositivo interessante, como se estivéssemos dentro da cabeça de um argumentista, e avança, sem pruridos, pela comédia negra, com múltiplas referências a Pulp Fiction, incluindo a famosa mala.

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