Poderá Memory of Princess Mumbi tornar-se um caso de estudo sobre o uso da IA no cinema?

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Quando perguntaram a Damien Hauser, durante o Festival de Cinema Africano de Tarifa/Tânger, qual era o orçamento do seu filme, Memory of Princess Mumbi, ele riu-se. Para depois concluir: era quase como se não tivesse orçamento nenhum. A atriz, Shandra Apondi, que também estava presente no encontro com o público, confirmou as condições precárias: o filme foi feito com muito pouco dinheiro — chegámos a dormir todos no mesmo quarto de hotel, não havia ninguém para me dar assistência.

Esse vazio orçamental concede ao filme um estilo rebelde, quase punk, que dificilmente atingiria com outro tipo de produção. E, tal como acontece com muitos projetos independentes, os valores para pagar à equipa técnica e artística só chegaram depois da rodagem concluída, através de prémios e de contratos com distribuidoras. Não se defendem aqui os filmes de baixo orçamento por princípio, mas Damien é um dos casos que soube tirar proveito artístico da sua condição. A tal ponto que o filme, feito de forma absolutamente independente, alcançou curiosidade mundial e presença em festivais relevantes.

Princess Mumbi é um mockumentary situado num futuro próprio, que alberga múltiplas camadas. Há um constante olhar para o presente através do futuro, tendo como ponto de partida uma guerra ficcional, ou uma “Grande Guerra”, que reorganizou aquele mundo africano imaginário. Entre a utopia e a distopia, sem escolher claramente um dos caminhos. Tem a frescura de um filme de comunidade, um filme de amigos (no melhor dos sentidos), desmontado desde o início a sua estrutura, as suas fragilidades, convertendo-as em virtudes estéticas e artísticas. É sempre um filme sobre o filme que se está a fazer.

Por isso, quando se pergunta: para quem foi feito o filme? Para o público africano ou para o público dos festivais europeus? , a resposta, neste caso, é simples e é explicitamente encarada no próprio argumento. O filme foi feito para aquela comunidade em concreto, para que aquele grupo de pessoas se pudesse tornar presente. E, sintomaticamente, este será o primeiro filme de Damien com estreia marcada para o Quénia, conciliando a representatividade local com a consagração na elite dos festivais europeus.

Em Memory Princess Mumbi, Damien serve-se da capacidade fabulatória africana e transforma-a, ao mesmo tempo que afirma a sua paixão inequívoca pelo próprio cinema, que o leva a experimentar formatos.

É bem enquadrada nessa paixão pelo cinema e pelos seus formatos, entre o kitsch e o vintage, que surge a utilização da IA. Sem IA, o filme simplesmente não teria sido possível, pois Damien serve-se da tecnologia para recriar cenas futuristas, quase ao estilo sci-fi. O seu uso é ético no sentido em que todas as cenas que recorrem ao dispositivo estão imediatamente identificadas. Mas nem precisavam de estar. A IA é o novo kitsch. A sua indumentária estética é imediatamente reconhecível, assim como a versão 3D do monstro da lagoa. E parte da questão é essa: tal como o português Edgar Pêra, Damien consegue encontrar nas limitações estéticas da IA uma linguagem autoral.

Alguns poderão alegar que Damien vendeu a alma ao diabo. E que o diabo volta sempre para cobrar as suas dívidas. Será que a IA vai matar ou democratizar o cinema de autor? Neste caso, será mais como dormir com o inimigo. Para já, a IA salvou-o, tornando o filme possível e concedendo-lhe liberdade. Mas tal deve-se, acima de tudo, à inteligência autoral do realizador.ui o teu texto…

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