MIMO: Quando a música vai ao cinema

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O Mimo foi ao cinema. Ou o cinema veio ao Mimo. Na primeira edição do festival na cidade de Guimarães — o 61.º festival que Lu Araújo realizou sob esta marca — houve espaço para um pequeno ciclo de cinema, em estreito diálogo com a programação musical, que continua a ser o prato principal do evento. Logo à partida, é salutar este alargamento, num festival que defende causas sociais e humanistas e que abre regularmente a programação a outras áreas, como as artes visuais ou o Fórum de Ideias, onde se discutem temas importantes para a cultura e para o mundo.

Mais do que segundo critérios de qualidade cinematográfica, os filmes foram selecionados de modo a estabelecer essa comunicação com os concertos, permitindo uma complementaridade que funciona bem. Assistir ao vibrante concerto de Fernanda Abreu, assinalando os 30 anos do emblemático álbum Da Lata (1995), depois de ver o documentário de Paulo Severo, em que se explica a forma como Fernanda e aquele disco, em concreto, marcaram a cena musical brasileira dos anos 90, ganha ainda mais energia. É como passar da teoria à prática.

Da mesma forma, ouvir o concerto intimista de Alaíde Costa, lenda viva da música brasileira, depois do documentário A Noite de Alaíde, de Liliane Mutti, é dar às imagens do cinema de animação uma presença física, com uma dimensão quase mística.

Não obstante as intenções e as vantagens claras e louváveis de incluir cinema na programação de um festival de música, esta programação suscita-nos algumas considerações.

Uma evidência óbvia é que a qualidade musical e a cinematográfica não têm de caminhar lado a lado. Conhecemos excelentes filmes sobre músicos medíocres e péssimos filmes sobre génios musicais. A qualidade do objeto cinematográfico — do documentário musical — é independente da qualidade do músico abordado. Claro que não há nada pior do que ver um mau filme sobre um músico medíocre: nem os interlúdios musicais nos salvam.

Na indústria dos videoclipes, que se tornou um formato autónomo e popular desde o surgimento da MTV, nos anos 80, há uma subordinação da imagem à música, invertendo a mais comum tendência do cinema para subordinar a música à imagem. Os videoclipes são feitos com o objetivo de promover a sua banda sonora. Tal não impede, naturalmente, que existam videoclipes que são obras artísticas extraordinárias.

No campo do documentário musical, há também toda uma categoria de filmes que se confundem com vídeos promocionais: ou porque são, de facto, encomendas com esse objetivo, ou porque o realizador é um grande fã do músico retratado e não o consegue disfarçar. Parece fazer parte das regras recolher depoimentos com elogios superlativos, para deixar clara a genialidade do objeto retratado, idolatrando-o.

Algo assim acontece com o filme Fernanda Abreu — Da Lata, 30 Anos. É um objeto cinematográfico pobre, feito de depoimentos em catadupa, segundo um formato básico de talking heads, com pessoas relevantes a realçarem a importância do disco e da sua autora. A mais-valia que apresenta são as imagens de arquivo. O samba-funk de Fernanda Abreu merecia um melhor objeto acessório. Na verdade, nem precisava de nenhum.

The Blind Couple from Mali, de Ryan Marley, chega a cair no mesmo erro: eram totalmente dispensáveis os depoimentos a exaltar, de forma superlativa, as qualidades de Amadou & Mariam, até porque a sua música fala por si e está contextualizada num universo mais amplo, que é o da música do Mali. A grande diferença é que Marley vai além disso. Procura dar-nos o mundo interior do casal maliano, a sua própria perspetiva, acompanhando-o de forma quase íntima e assumindo abertamente a invisualidade como um tema central, para lá da música. Marley, que não é um documentarista musical, quis chegar ao fundo destas personagens e, em alguns momentos, conseguiu-o. O eco do filme encontra-se no concerto sublime que Oumou Sangaré, outra gigante da música do Mali, deu em Guimarães, sempre com uma postura cívica e de compromisso, particularmente na defesa dos direitos das mulheres.

Caso ainda diferente e mais interessante é A Noite de Alaíde. Liliane Mutti, que tem trabalhado em torno de grandes músicos brasileiros, apaixonou-se por Alaíde e quis contar a sua história. Não recorreu a depoimentos; usou antes a voz-off da própria Alaíde e teve a criatividade de intercalar o documentário com elementos de docuficção em cinema de animação, recriando passagens relevantes da vida da cantora. É pena que o guião não tenha sido um pouco mais trabalhado, sobretudo nesses excertos de vida em animação. Mas, no seu conjunto, o filme consegue chegar onde quer. E é, de facto, mágico conferir ao vivo a grandiosidade desta figura discreta da música brasileira, que ombreia em relevância com Elza Soares.

Rezem Vekrom e Mark Serena tentaram fazer algo ainda diferente em As Aventuras de Angosat, que afirmam ser o primeiro filme musical angolano — afirmação discutível. Basicamente, é uma sequência de videoclipes, com um enredo deliberadamente ingénuo, mas também uma ideia de cinema: todo o filme é realizado num único plano-sequência. O fio condutor narrativo que une os momentos musicais é a ideia do Angosat, um satélite angolano, imaginando-se que este permitiu também o envio do primeiro astronauta do país para o espaço, o rapper Man Ré.

Cinematograficamente, acaba por ser pobre — não devido ao baixo orçamento ou ao ar amador —, mas porque o dispositivo do plano-sequência não deveria ser um fim em si mesmo e acaba por limitar muito a margem de manobra da câmara, fazendo com que esta caia em alguns excessos, como o uso abusivo do zoom. Nada disto fere as boas intenções de um filme que, através do hip-hop, defende a inclusão.

Fora de tudo isto está The Nova Convention, em torno do poeta da Beat Generation William S. Burroughs. Há aqui uma ligação indireta à cidade, pois um dos seus realizadores e produtor, Rodrigo Areias, é vimaranense e estabeleceu em Guimarães uma das mais dinâmicas produtoras portuguesas, a Bando à Parte.

O filme passa-se literalmente a milhas de distância — também em termos temporais. Rodrigo Areias e Aaron Brookner tiveram acesso a raras imagens de arquivo e a material inédito da Nova Convention, iniciativa poética, política e artística que William Burroughs promoveu nos anos 70, em Nova Iorque. A remontagem dá-nos acesso a imagens documentais históricas, com um ritmo aliciante. Além de um contacto próximo com Burroughs, são-nos oferecidos momentos performativos de Patti Smith, Allen Ginsberg, Frank Zappa, Laurie Anderson, John Cage, Philip Glass e Merce Cunningham, entre muitos outros.

Alaíde Costa, Cristóvão Bastos & Mauro Senise

Aos 90 anos, às 18 horas, com 40 graus à sombra, Alaíde Costa deu um concerto íntimo e delicado, com uma voz idílica, muito bem acompanhada pelo pianista Cristóvão Bastos e pelo flautista Mauro Senise. Cantou Jobim, Vinicius, Moacir Santos, temas da sua autoria, e surpreendeu a plateia com Menino d’Oiro, de Zeca Afonso.

Omou Sangaré

Também ela é uma lenda viva, neste caso do Mali. No palco principal, acompanhada por um grupo de excelentes músicos, proporcionou-nos uma viagem eletroacústica cheia de ritmo, capaz de pôr o público a dançar. Os blues do Mali não ficam a dever nada aos do Delta do Mississipi. Pelo caminho, a postura cívica de uma mulher que luta pelos direitos das minorias e pela igualdade de género.

Fernanda Abreu

Foi um autêntico furacão que passou pelo palco do Mimo. Fernanda Abreu, acompanhada por excelentes músicos, pôs toda a plateia a dançar com novas versões do seu emblemático álbum Da Lata. Samba-funk na sua fórmula original. Ainda houve tempo para recuperar outros sucessos, como Rio 40 Graus.

Barbatuques

Os Barbatuques desafiaram o calor de Guimarães com uma explosão de ritmo que tem como ponto de partida o próprio corpo. O coletivo, com cerca de dez músicos em palco, descobriu há muito que o corpo pode ser usado como um instrumento — e então percute-o, provocando efeitos originais e inesperados, muitas vezes em diálogo com o público. O mundo inteiro conhece-os pela sua versão de Baianá.

Aline Paes

Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, fazem 60 anos. E a jovem cantora Aline Paes montou um concerto de homenagem cuja primeira apresentação aconteceu no Mimo de Guimarães. Excelentes arranjos do guitarrista Pedro Franco para uma voz límpida e intensa, que respeita a herança pós-bossa nova ao mesmo tempo que procura afirmar a sua própria personalidade. Um momento de calor.

Língua Gestual

Contratar uma intérprete de língua gestual para um festival de música pode não parecer a opção mais lógica. Mas é preciso dar os parabéns à organização pela ousadia e por este passo, mais do que simbólico, no sentido da inclusão. E dizer também que Laíza Costa esteve muito bem em palco, falando com as mãos e dançando, por vezes confundindo-se com o próprio elenco.

Fotografia de André Henriques e Hugo Sousa

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