Dois filmes de geografias distantes prestam homenagem à própria história do cinema, recuperando linguagens ou formatos do passado e assumindo o sentido lúdico do gesto. Ambos são primeiras obras, o que torna a opção ainda mais significativa: há nela algo da lógica clássica de aprendizagem do estudante de artes, que começa por imitar os mestres em busca de uma linguagem própria. Isto embora ambos os filmes ultrapassem já a ideia de uma mimetização pura.
Falamos de The Ungrateful Tenant, do neozelandês Conor Bowden, um pastiche do expressionismo alemão, que se estreou no New Zealand International Film Festival e que, até ao momento, não teve um percurso internacional significativo; e de Snapshot, de Joseph Archer, uma efabulação em torno do pré-cinema que se estreou no Edinburgh International Film Festival e, aparentemente, ainda não saiu do Reino Unido. Os filmes têm ainda em comum um contexto de terror que se aproxima, de forma mais ou menos deliberada, da comédia, bem como meios de produção independentes.
Em The Ungrateful Tenant, a escola expressionista alemã dos anos 1920 é usada como gramática estilística. O cinema está cheio de elos perdidos, e Conor Bowden tenta reencontrar este, puxando-o para o seu próprio universo e acrescentando-lhe traços de um burlesco mais político, chapliniano. O filme não tem vozes, mas é acompanhado por uma extraordinária banda sonora, composta por Joshua Worthington-Church, que funciona como uma peça única, jazzística, cheia de variações e preparada para transmitir, a cada momento, as emoções pretendidas. No contexto de um filme mudo, com onomatopeias escritas a irromper das imagens, como acontece na banda desenhada, fica a sensação de que aquela banda sonora foi acrescentada a posteriori, num cine-concerto de um festival de cinema.
The Ungrateful Tenant tem um tema político: fala-nos da crise da habitação em Auckland, com características muito específicas e particularmente insólitas, e olha para a geração millennial como a principal vítima desta falha do sistema.
O humor domina a ação e o género justifica as coincidências no espaço e no tempo. O filme lida de forma corajosa e divertida com um grave problema social, com o próprio realizador a assumir o papel principal, simultaneamente como anti-herói e clown. No meio de tudo isto, conta ainda uma história de amor.
Mesmo nos momentos em que mastiga em demasia as suas reviravoltas, o filme cumpre-se. Cumpre-se no sentido em que a linguagem adotada serve e enfatiza a história que Bowden quer contar. E não é uma história inócua ou vazia: trata-se de um problema real que aflige a sua geração, tanto na Nova Zelândia como em muitos outros lugares do mundo. O filme torna-se quase um objeto punk e revolucionário quando sugere, de algum modo, uma luta contra os senhorios — uma luta de classes, quase corpo a corpo —, deixando de lado o papel de um Estado que deveria ser mais competente na proteção dos mais vulneráveis. Se não apela propriamente a uma revolução, apela a uma revolta num sentido primário: não contra o Estado, mas contra quem usa o seu poder para fazer os outros sucumbir.

Snapshot segue outro caminho em termos estéticos. É um mockumentary em torno de Jack, o Estripador.magina a invenção, ainda no pré-cinema, de uma câmara estenopeica modificada, acoplada a cilindros de cera e capaz de registar imagens em movimento com som sincronizado, com uma qualidade semelhante ou superior à do cinema dos anos 1930. E tudo isto ainda no século XIX. O filme decorre inteiramente dentro de uma moldura circular, como se estivéssemos a vê-lo através do óculo de uma porta.
Se, em The Ungrateful Tenant, um estilo serve e vinca a narrativa, hiperbolizando as emoções, como fazia o expressionismo, em Snapshot o formato impõe-se, secundarizando tudo o resto. Impõe-se, em parte, pelo seu bizarro anacronismo, ainda que assumido: não se trata apenas de imaginar que alguém saltou da lanterna mágica para The Jazz Singer sem passar por A Chegada de um Comboio à Estação. Trata-se de imaginar que o salto se deu diretamente para o digital, com uma sincronia perfeita entre som e imagem e uma atitude perante a câmara já naturalizada pelos falsos não atores — mesmo quando fingem estar surpreendidos com o objeto. Snapshot quer convencer-nos, sem sucesso, de que alguém do século XIX, no tempo do protocinema, inventou uma câmara portátil com as mesmas capacidades técnicas de uma câmara digital, sendo as únicas diferenças o formato circular da janela e a captação em sépia.
A própria câmara torna-se protagonista do filme. Não apenas a câmara enquanto objeto visível, comunicante e quase omnipresente, mas o dispositivo em si. O filme é dominado pela janela circular. A pantalha ofusca tudo o resto. E o exercício torna-se sobretudo lúdico, como aqueles desafios de escrita criativa em que se pede aos alunos que não utilizem a letra A.
Isso torna Snapshot algo inócuo, apesar da sua aparente originalidade. O problema não está na diversão narrativa, ainda que supérflua, em torno do mito de Jack, o Estripador, mas no facto de Archer não ter alargado o conceito lúdico à linguagem cinematográfica, como fez Bowden, ficando-se quase aoenas pela pantalha e pela cor, o que é manifestamente pouco. Já que estamos a brincar aos clássicos, pedia-se a Snapshot que recriasse ou reinventasse uma linguagem de protocinema, mesmo que de forma fantasiosa.
Não obstante, é salutar a ousadia de ambos os filmes, que avançam numa espécie de contracorrente, procurando no passado lições para o presente e para o futuro de forma plenamente assumida. E, desse ponto de vista, Archer, ao apresentar um filme inteiro dentro de um círculo, revela uma coragem ainda maior.
