Tarifa, Tarifa, África à vista!

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Do Festival de Cinema de Tarifa é possível ver África. A afirmação é absolutamente literal: basta dar dois passos para fora do Cineteatro Avenida para encontrar a silhueta de Marrocos. Do lado de lá fica Tânger. Mesmo em frente, o porto moderno de Tânger Med; mais à direita, a cidade propriamente dita. Pode apanhar-se um barco e, em cerca de meia hora, aportamos em Marrocos e ficamos, por supuesto, a ver a silhueta de Espanha. Tarifa tem essa bênção geográfica. É um lugar de charneira, onde ainda não se construíram pontes literais, mas onde se repetem pontes culturais, históricas e afetivas, inerentes ao extremo em que os dois continentes quase se tocam.

O Festival de Cinema de Tarifa tem plena consciência do local onde decorre, por isso chamou a si essa ideia de fronteira, de despertar a curiosidade sobre o que se passa do lado de lá do Mediterrâneo. E, simbolicamente, acolheu o nome de Tânger na sua designação: oficialmente chama-se Festival de Cinema Africano de Tarifa e Tânger. Apesar de a parte realizada em Marrocos funcionar mais como uma extensão, à semelhança de outras do lado de cá do Mediterrâneo.

No caso, mais importante do que saber que se vislumbra, de forma nítida mas pouco concreta, a silhueta de África nos intervalos das sessões, importa perceber de que forma se vê África lá de dentro das salas. O esforço contínuo do festival, que já tem 22 anos de existência (ou persistência), é fazer um retrato abrangente, com a consciência de que não há um cinema africano, assim como não há apenas um cinema europeu, fazendo uma seleção diversificada, mas mantendo princípios de qualidade. Não veremos ali obras de Nollywood, apesar de a Nigéria ter uma das maiores indústrias do mundo, nem os blockbusters do cinema comercial egípcio ou sul-africano. O cinema é privilegiado enquanto linguagem, para além da sua dimensão de entretenimento.

Em certo cinema africano, sobretudo o dito autoral ou independente, há uma questão que se vai colocando ao longo do tempo: não tanto quem o faz (o festival admite filmes de realizadores africanos em geral), mas para quem se faz, e de que forma isso se reflete no produto final. Explique-se: grande parte do cinema dito de autor africano é financiado externamente, sobretudo por países europeus (com a França no topo) que os coproduzem, com ou sem recurso a fundos. Os produtores fazem-no com uma estratégia deliberada de levar os filmes a grandes festivais, muitas vezes alimentando as perspetivas ou as temáticas que o público dos festivais europeus espera ver retratadas num filme africano. Temáticas politicamente muito relevantes, como a questão dos refugiados ou o tráfico humano. Nada a objetar, desde que não se perca de vista o espaço para que os povos, os realizadores e os argumentistas contem as histórias que querem contar.

Esta questão é resumida de forma muito espirituosa em Samra’s Dollhouse, da tunisina Maissa Lihedheb, definitivamente uma das mais divertidas curtas em concurso. Conta a história de uma atriz e produtora egípcia que faz um casting para contratar um ator, bailarino, com quem contracenar num filme romântico. Ela é abusadora, manipuladora, prepotente: funciona bem a ironia nesta inversão de papéis. A certa altura, perante a agressão constante, ele desiste, quer ir-se embora. Ela tenta convencê-lo, tentando-o com a promessa de sucesso na Europa e de idas a festivais de cinema. Ele responde-lhe que é muito feliz a trabalhar na companhia local. Ela ri-se.

Para quem se fazem os filmes é uma questão que atravessa também alguma filmografia europeia, incluindo a portuguesa, mas em alguns países africanos torna-se flagrante e frustrante. Damien Hauser, realizador queniani residente na Suíça, que fez um filme sem meios nem apoios, revela que este poderá ser o seu primeiro filme a estrear-se na terra natal — o filme merece um artigo à parte. Já a atriz angolana Yohana Selei, protagonista de As Aventuras de Angosat, conta com tristeza que o filme passou apenas três vezes em Angola. O caminho faz-se sobretudo pela Europa.

Federico Olivieri, um dos diretores do festival — que este ano passou a ter uma estrutura horizontal —, explicou ao WAH que o festival faz um grande esforço para encontrar um cinema africano menos dependente da Europa, mas com qualidade cinematográfica.

Podemos olhar para três exemplos, além de Princesa Mumbo, de que trataremos à parte.

One Woman, One Bra, de Vincho Nchogu, apesar de cinematograficamente pobre, tem o mérito de inverter alguns clichés africanos. Há uma incompreensão latente entre os europeus instalados e os povos de Sayit, no Quénia. É uma barreira quase inultrapassável, que se mede por um desfasamento da realidade do lado dos ocidentais. Mas, ao mesmo tempo, traça-se um retrato do povo de modo desconcertante — talvez por contaminação europeia —, em que não funcionam os princípios de solidariedade comunitária e há uma cedência, na sua escala, ao consumismo. É quase uma África antiafricana.

De alguma forma, é o oposto de Promis le Ciel, de Erige Sehiri, que nos conta uma história de refugiadas marfinenses e de resistência, em Túnis, através de uma igreja evangélica. A história de três mulheres e uma criança que chegaram a construir a perspetiva de um mundo melhor, e têm de se defrontar com xenofobia, abuso policial e corrupção. O filme consegue criar a tensão certa, mas parece não resistir a uma fórmula de picos de intensidade e emocionalidade, um pouco ao género das fórmulas da Netflix.

Mais forte é o documentário The Woman Who Poked the Leopard, de Patience Nitumwesiga, sobretudo porque tem o privilégio de acompanhar de perto uma figura tão louca como relevante e corajosa. Stella Nyanzi é uma poeta, feminista e opositora do regime ugandês, que se manifesta veementemente, com determinação e criatividade, contra o ditador. Chega a ser presa e acaba exilada. A realidade mostra a capacidade da realizadora de a filmar de perto, na intimidade política e familiar.

Obra sublime é La Vie Après Siham, do egípcio Namir Abdel Messeeh. O filme pode enquadrar-se facilmente na subcategoria dos diários familiares filmados, que por vezes quase têm direito a uma secção à parte nos festivais de documentário. Messeeh propõe-se fazer um filme com a mãe, aceitando o seu desafio, mas a mãe morre subitamente e ele acaba por fazer um filme sobre a sua ausência. Uma ausência que se encontra nas memórias, na relação com o pai, no amante obscuro. É também um filme sobre a obsessão de um realizador pela sua própria câmara, em que transforma o luto num objeto filmado, sem espaço para off the record.

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