Chicas Tristes, de Fernanda Tovar, e Little Trouble Girls, de Urška Djukić: há tanto a uni-los como a separá-los e, talvez por isso, seja irresistível propor uma leitura paralela dos dois filmes.
Desde logo, são as primeiras obras de duas promissoras realizadoras, com cinco anos de diferença entre si. Ambas já tinham um percurso sólido em curtas-metragens e afins e agora aventuram-se numa primeira longa, alcançando visibilidade em festivais relevantes, sendo que ambas foram premiadas em Berlim (vi *Chicas Tristes* no FEST, em Espinho). Os dois filmes lançam um olhar sobre a juventude, de uma geração que já não é a das realizadoras (que têm 35 e 40 anos), mas que, de alguma forma, ainda lhes está acessível.
A sexualidade feminina, na melhor e na pior das formas, atravessa as duas obras, mas com perspetivas diametralmente opostas, desde logo pelo contexto.
Little Trouble Girls decorre no ambiente conservador de um coro de igreja na Eslovénia profunda. Estamos perante uma sexualidade reprimida, que convida a uma descoberta através do atrevimento, entre jogos de adivinhação e busca de prazer, muitas vezes já no domínio claro do erotismo.
Chicas Tristes situa-se numa juventude mexicana sexualmente liberalizada, que quase impõe a iniciação sexual como uma inevitabilidade desejável na lógica de grupo. La Maestra, a mais encantadora e determinada personagem, profere mesmo um discurso de sobrevalorização do sexo, que entra em amargo contraste com o episódio traumático que o filme retrata.
Os miúdos e miúdas de Chicas Tristes estão mais próximos dos de Larry Clark e, ainda mais, dos de How to Have Sex, curiosamente também uma primeira obra, de Molly Manning Walker, que acompanha os excessos de estudantes inglesas numa viagem de verão à Grécia.
Em Little Trouble Girls, a sexualidade é algo vedado, oprimido, codificado, mas sempre presente. Todos os gestos de Lucia têm uma intencionalidade erótica ou sexual quase intuitiva. O filme começa por ser um mergulho no universo sexual dessa adolescente, sempre no domínio do desejo e da tentação. A ideia de pecado agudiza o desejo.
Há uma inversão do paradigma clássico: a partir de determinada altura torna-se clara a objetificação sexual do homem. E há um prolongamento da tensão e da atração homossexual, no desejo pela amiga, no desejo pelo corpo do pedreiro, ficando intencionalmente por clarificar qual dos desejos serve de sucedâneo do outro ou se farão parte do mesmo libido.
Em Chicas Tristes, também há, de início, uma certa emancipação feminina, na ideia de liberalismo moral, em absoluto contraste com o filme de Djukic. A perceção sobre o masculino reclama uma certa igualdade ou mesmo superioridade também do ponto de vista sexual. Tal também é visível nas cenas de piscina, em que há uma sensualização muito natural, nada excessiva, dos corpos.
A piscina de Chicas Tristes é o coro de Little Trouble Girls. Um território comum e supervisionado onde os olhares e os corpos se intercruzam.
Em ambos os filmes há uma tensão homossexual permanente e persistente. Em Little Trouble Girls, esta torna-se mais concreta, ficando clara a conversão da amiga/colega recente em objeto de desejo, não escapando a uma lógica grupal, típica de comunidades moralmente oprimidas, que tende para o bullying.
Em Chicas Tristes, a tensão sexual também existente e timidamente verbalizada é dissipada pelas circunstâncias e nunca chega a estar próxima de se concretizar. O que em Little Trouble Girls é uma atração irresistível e irresponsável, em Chicas Tristes, em que (quase) tudo é permitido, converte-se numa bela história de amor. Uma história de amor que, apesar da tensão, pode ser legitimamente lida como uma bela história de amizade entre duas adolescentes que sonham viajar juntas para o Brasil.
Essa fluidez geracional de Chicas Tristes é interrompida muito cedo, em termos narrativos, por um episódio traumático grave: Paula é violada pelo potencial namorado. Tal traz uma perspetiva distorcida daquele mundo, quase o põe a rodar ao contrário. E acaba por não se enquadrar num simples filme de crescimento, mas antes num percurso de crescimento forçado, contra a natureza, pós-traumático.
Em Little Trouble Girls, o episódio traumático, perto do final, é de outra ordem: algo que se aproxima de um assédio moral e de violência psicológica grave. Uma cena talvez um pouco excessiva, protagonizada pelo maestro do coro, mas que precipita a personagem para uma autodestruição — ou uma autoconfiguração — que, se quisermos, também a obriga a esse crescimento forçado. De resto, em vez de um trauma único, o mundo de Lucia é feito dessa opressão constante, de jogos de afeto e desafeto, com uma tendência para o bullying.
Formalmente, os filmes obedecem a escolas estéticas distintas, que dialogam bem com os respetivos contextos. Little Trouble Girls é mais contido e rigoroso; Chicas Tristes dá mais liberdade à câmara, soltando-a. Little Trouble Girls usa a música dos Sonic Youth quase como o happy ending possível; Chicas Tristes inventa uma cena com espelhos no topo de um prédio mexicano como um sinal de esperança.
Não obstante, ambos os filmes revelam algumas dificuldades na construção do desfecho, na dúvida sobre como sair dali. Ambos tentam fazer algo semelhante, promovendo, ainda que tenuemente, uma ideia de renascimento pós-trauma, que é, afinal, essa ideia de crescimento. Um dia serão mulheres.
