Brave New Love: Ensaio sobre a fidelidade

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Se Los Días Libres pode ser entendido como um filme pré-feminista, embora a questão de género seja abordada de forma extremamente discreta e quase irrelevante, Destroy All Girls é um case study feminino e feminista num contexto muito próprio, e At Night um filme engajado sobre a luta das mulheres, mas também das pessoas racializadas e socialmente discriminadas. Já em Brave New Love, que também se estreou em Locarno, poderemos estar perante algo a que quase se poderia chamar pós-feminismo. Não num sentido conformista, mas utópico, ao sugerir uma sociedade que evoluiu até ao ponto de as questões da discriminação contra as mulheres estarem ultrapassadas. Utópico nesse sentido e em nenhum outro.

Brave New Love, de Maria Bäck, pode ser visto como um ensaio sobre a infidelidade, na medida em que parece querer criar uma situação-tese para depois promover o debate através do seu dispositivo narrativo. Um grande «E se…?». E se uma mulher traísse o marido num casamento feliz, não porque este fosse violento, porque ela tivesse uma relação difícil com a mãe ou porque a relação estivesse esgotada, mas apenas porque se apaixonou por outro homem? E se, apesar de se apaixonar visceralmente por esse homem, nunca deixasse de amar sobriamente o marido?

O comentário mais fácil seria dizer que os nórdicos têm vidas demasiado fáceis e bem definidas, com condições excecionais e qualidade no quotidiano, pelo que se aborrecem imenso, no extremo oposto das personagens de At Night, e inventam coisas para se desentorpecerem. Coisas como fotografarem-se nus no lago, frequentarem um grupo de mulheres na igreja, terem aulas de aeróbica ou arranjarem um amante.

É sintomático que, no grupo da igreja, mais progressista do que algumas comunas, procurem encontrar uma explicação para a relação extraconjugal e lhe perguntem: mas será que o teu marido não ajuda em casa? O problema não está no marido, de quem ela se sente próxima, mas no amante, que, mesmo depois de se mudar para a Grécia, lhe preenche a cabeça e, eventualmente, o coração.

O filme centra-se numa personagem feminina cheia de humor. Parte da sua graça está na naturalização e na desdramatização do caso amoroso, na forma como o expõe na igreja ou como neutraliza qualquer questão moral. No fim de contas, nada há de mais natural do que as pessoas apaixonarem-se. O filme mostra também como as situações se podem tornar complexas. Claro que, se fosse um homem a trair, a personagem seria insuportável. Sendo uma mulher, toleramo-la, embora dentro de certos limites.

Quando o seu mundo desaba, dá-se uma reversão de movimentos que se torna abstrusa. É difícil suportar a vitimização extrema desta mulher que traiu e que, no geral, foi bem tratada perante a sua traição. A personagem é quase infantilizada, tal como a própria filha. A parte final do filme, que se pretende mais abstrata, como se tentasse galgar o subconsciente, torna-se pobre e rebuscada. Isso fica patente num subtil deus ex machina, acompanhado por uma piscadela de olho à tragédia grega. A mitologia é evocada desde o nome das personagens e ganha corpo no final. A solução encontrada passa por colocar a protagonista em coma, invertendo uma vez mais a sua posição, transformando-a em vítima das circunstâncias e da sua própria queda e convocando todos os outros, marido, amante, namorada do amante e filha, para uma espécie de albergue espanhol em torno de um falso leito de morte.

Brave New Love está cheio de bons pormenores, na escrita, nas situações e no estilo, formal ou informal, mas perde-se a caminho do fim, por mais civilizado que tudo isto nos possa parecer.

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