Para fazer um filme é preciso um bairro inteiro… e um jacaré

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Em poucos casos, a decisão de viver em função de uma ideia de cinema terá ganho uma expressão tão explícita como na obra de Basil da Cunha. O realizador suíço, de ascendência portuguesa, mudou-se de armas e bagagens, há mais de 15 anos, para a Reboleira, um bairro dos subúrbios de Lisboa com condições habitacionais precárias, onde vive uma numerosa comunidade cabo-verdiana e os seus descendentes. Descobriu que era ali que queria viver e fazer o seu cinema. Não lhe bastou introduzir-se de mansinho na comunidade, de câmara ao ombro, fazer um filme e ir-se embora. Basil mudou-se realmente para lá, num gesto pessoal, social, político e artístico, procurando tornar-se parte da comunidade e fazer filmes de dentro para fora.

O cinema de Basil foge a alguns dos parâmetros típicos do cinema português e europeu que retrata o estilo de vida e os problemas dos subúrbios. Por um lado, não se inscreve na linha estética e artística de Pedro Costa: não procura planos emolduráveis, nem cultiva aquele cuidado extremo com a luz e o enquadramento que permite à imagem transitar facilmente da tela para o museu e secundariza a narrativa na sua conceção clássica. Pelo contrário, Basil gosta de contar histórias, e o seu dispositivo narrativo acelerado convida ao dinamismo da própria câmara.

Por outro lado, não adota uma postura condescendente e evidentemente política, como quem assume a missão de mostrar ao mundo que todas as pessoas que ali vivem são bons cidadãos a quem a sociedade virou as costas. Basil filma sem esse tipo de agenda. Procura algo mais genuíno, construindo as histórias que ele e o grupo de moradores com quem trabalha querem contar.

Essas histórias talvez sejam diferentes daquelas que esperamos que nos contem. Não são necessariamente fragmentos de realismo social à maneira dos Dardenne, nem uma tomada de consciência da diversidade e da conflitualidade urbanas ao estilo de Kassovitz. São ficções que envolvem crimes, paixões, lutas de gangues, problemas financeiros, relações familiares e muito mais.

O sucesso do projeto de Basil passa também pela aquisição dos próprios meios de produção e pela criação da sua produtora, o que lhe permitiu, desde muito cedo, inventar uma metodologia de produção especificamente aplicada ao seu cinema. Na conceção de Basil, para fazer um filme é preciso um bairro inteiro. A ideia é levada tão à letra que, segundo o próprio realizador, será difícil encontrar alguém na Reboleira que não tenha participado, diante ou atrás das câmaras, num dos seus filmes.

A linguagem do cinema de Basil da Cunha tem sido desenvolvida de forma programática e consistente, enquanto arte coletiva, desde 2011, ano em que estreou a sua primeira curta-metragem, Nuvem. Basil tornou-se um dos mais relevantes realizadores portugueses da última década, com justo reconhecimento nacional e internacional.

Jacaré é a quarta longa-metragem que Basil construiu na Reboleira e é anunciada como a última ali filmada, até porque o bairro está em processo de demolição. Sucede ao musical Manga d’Terra (2023) e a O Fim do Mundo (2019), talvez o seu filme mais aplaudido. O meu favorito é a curta-metragem 2720, realizada num plano-sequência particularmente ágil na forma como revela a arquitetura labiríntica do bairro.

Esperava-se naturalmente que a demolição e o realojamento dos habitantes ganhassem protagonismo no filme. No entanto, esse processo é apenas visível no cenário, de forma inevitável. Terá causado algumas dores de cabeça ao realizador, uma vez que, entre a escrita e a rodagem, muitos dos lugares desapareceram.

O filme constrói-se sobre as ruínas de um bairro onde tudo está prestes a cair, mas ninguém fala disso, como se estivesse um jacaré na sala.

Trazido para o bairro como presente recusado destinado a agradar ao líder de um gangue instituído, uma espécie de máfia local, o jacaré é o elemento disruptivo que dá sal a um filme relativamente redundante. Podemos entreter-nos a descortinar significados simbólicos para o bicho: o perigo, a natureza selvagem, o exotismo, o estrangeiro, o bulldozer que vai destruir o bairro, o próprio realizador, o bem ou o mal. Acima de tudo funciona como elemento de divertimento e distração, promovendo diálogos inspirados. Ouvem-se frases como: “É um animal afável, mano” ou “O jacaré tem sentimentos”.

O jacaré é um elemento de humor num filme em constante ebulição. Para lá do dinamismo da câmara, apoiado em planos longos, os largos minutos iniciais refletem uma convulsão social. Toda a gente grita. Toda a gente tem razões para estar zangada ou revoltada com alguma coisa. Sobrevive-se num ecossistema difícil. Depois de um assalto a um bingo, a polícia percorre o bairro, vigilante e ativa. Traficantes e moradores digladiam-se em torno do dinheiro desaparecido. Uns querem fugir com ele; outros sabem que só quando aparecer a polícia abandonará o bairro e tudo poderá regressar à normalidade. A agressividade é a linguagem. Há quem tente cobrar dívidas, há quem se recuse a pagá-las. Encontramos mais Scorsese e Tarantino do que Pedro Costa e Dardenne. Robert Altman aparece apenas como miragem no desenho multiplot.

Chandi torna-se uma figura central. É um rapaz frágil, dividido entre lealdades e deslealdades. É aquele que muda de lado e não encontra o seu espaço, que não está bem com ninguém. Vítima dos outros e de si próprio.

Num momento mais explicitamente político e social, um dos elementos do gangue diz-lhe: “És jogador de futebol? És cantor? Não? Então a única forma de te safares na vida é connosco.” A falta de alternativas é resumida pela voz de um gangster, mostrando que estes bairros, tal como as favelas brasileiras, são um problema de exclusão social que só pode ser enfrentado através de políticas amplas de inclusão.

Mas esse é o limite político de Basil. Como já se explicou, não é o tipo de realizador que anda com uma agenda a tiracolo, ele não está ali para nos doutrinar.

A tal ponto que, neste filme, quase se coloca a questão inversa. Há o perigo de Jacaré estigmatizar ainda mais estes bairros, apresentando-os como guetos, em vez de contribuir para a construção de uma imagem sociologicamente mais desempoeirada. O risco existe, mas faz parte do jogo.

Tal como anteriormente, Basil fez o filme que quis fazer, e não aquele que corresponderia às expectativas. O filme que quis fazer é uma espécie de thriller de gangsters, construído em multiplot, com bandos rivais e violência policial. A componente humana, mais enriquecedora, fica nas entrelinhas. Essas entrelinhas, presentes nos diálogos, nas cenas secundárias e em pormenores narrativos e estéticos que até são dispensáveis às linhas centrais da ação. A arte está nas entrelinhas. E é essa sua arte que distingue pela positiva Jacaré do mainstream do subgénero brasileiro dos filmes de favela.

De resto, Jacaré talvez seja o mais redundante dos filmes de Basil. Redundante no sentido que acrescenta pouco mais do que um jacaré aos filmes anteriores. Reforça também a necessidade de fechar um ciclo. O bairro foi demolido e, de alguma forma, Basil da Cunha também quase esgotou o seu modelo. Ora di bai, como se diz em crioulo. Fica um legado divertido e contundente, mas também uma enorme curiosidade em conhecer o próximo destino deste realizador sui generis que transformou uma reboleira numa Cinecittà.

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