O critério de «ficções do real» do Doclisboa tornou-se tão amplo que até inclui um filme de ficção científica. The Remotes, do filipino John Torres, que teve a sua estreia em Toronto, é uma obra futurista e distópica que cruza géneros e tem Manila como cenário. É também por essa relação com a cidade que se compreende a sua inclusão no festival. O Doclisboa apresentou uma extensa retrospetiva de Lino Brocka, o semideus do cinema filipino, e juntou-lhe um foco dedicado a John Torres, uma das figuras mais irreverentes do atual cinema do país, assim como Khavn, que também esteve no festival como jurado, curador e performer.
Em The Remotes, encontram-se ligações explícitas a uma das grandes obras de referência de Brocka, Manila in the Claws of Light, no retrato da capital filipina. Contudo, mesmo aí, há diferenças substanciais. Torres não se limita a atualizar esse olhar sobre Manila num cenário futurista: recria-o através de uma linguagem cinematográfica própria. Quase todo o filme decorre durante a noite, o que reforça a sua densidade visual, num trabalho sobre as sombras e a luz artificial que adensa a atmosfera misteriosa, soturna e contemplativa.
Embora projetado no futuro, o enredo revela uma inquietação contemporânea: imagina uma aplicação que controla os movimentos e as mentes das pessoas. Hoje em dia as redes sociais procuram exercer essa manipulação de forma menos coerciva; Torres imagina um aperfeiçoamento do modelo, com uma aplicação a que as pessoas obedecem de forma inapelável. Esta ideia é desenvolvida sobretudo através dos códigos do policial, com traços de noir, centrando-se num detetive que procura desvendar, contra tudo e contra todos, uma sucessão de acidentes de automóvel em locais próximos. Essa dimensão, por vezes quase gore, traz reminiscências de Crash, de David Cronenberg. Mas o filme segue por outros caminhos.
Na sua aura de mistério insolúvel e na melancolia desde logo transmitida pela voz off, The Remotes aproxima-se mais de David Lynch, sobretudo de Twin Peaks. Aqui não se procura uma Laura Palmer, mas uma zona de contacto entre o tangível e o transcendente. Toda a realidade concreta é atravessada por um lastro de melancolia que a relativiza e a torna estranha. Intuem-se existências amorfas, solitárias, esvaziadas de uma dimensão coletiva.
John Torres trabalha as suas personagens como quem lhes perscruta a alma. Ou, pelo menos, como quem tenta entrar profundamente na sua dimensão psicológica, colocando-as em psicanálise, com reminiscências de Édipo e Cassandra. Mesmo que essa procura se encaminhe para o vazio, para o desaparecimento do livre-arbítrio na condução dos gestos e dos corpos.
The Remotes é um filme ousado e exigente. A sua linguagem cinematográfica é consistente, pautada por travellings lentos que desvendam, com inteligência, a complexidade da mise-en-scène. Mas também por imagens aéreas e grandes planos de rostos por trás das viseiras de motociclistas em movimento.
Do filme depreendem-se, subtilmente, leituras políticas. Podemos encontrar ecos dos jogos perigosos de manipulação online de adolescentes vulneráveis, mas também uma ligação à inteligência artificial e à automatização da condução. Também há uma camada enraizada na realidade filipina. O filme pode ser visto como uma alusão ao ambiente de hipervigilância imposto pelo Presidente Rodrigo Duterte sob o pretexto do combate às drogas. Torres imagina essa vigilância elevada a um novo patamar, em que os visados são física e psicologicamente manipulados por um mecanismo externo, comandado por poderes obscuros.
