Ressonâncias das guerras no Médio Oriente e na Ucrânia atravessam três filmes de autor apresentados no Doclisboa, marcados por perspetivas muito pessoais. Noli me tangere, de Ghassan Salhab, teve a sua estreia mundial no festival e mostra uma Beirute sitiada. Geography Is Destiny, de Rayna Teneva, acompanha o regresso da realizadora à terra natal para desvendar um universo de rosas e armas. E, em Wild Asparagus, Avi Mograbi recupera imagens rodadas para Once I Entered a Garden (2012), acompanhando o seu professor de árabe às ruínas da aldeia onde nasceu, na Galileia.
Uma banda sonora para Beirute
Noli me tangere é um filme feito de uma estranha essência, tão rudimentar quanto eficaz. É um filme de guerra em que não se vê uma explosão, nem um estilhaço. A guerra é sobretudo algo que se ouve, na incerteza apavorante de nunca saber onde cairá a próxima bomba. A fragmentação de um mundo, a frustração perante a injustiça, não se exprimem aos gritos, mas num gesto singelo de resistência: ligar a câmara do telemóvel, mostrando a solidão do espaço vazio e a possibilidade do outro.
Presença habitual no Doclisboa, Ghassan Salhab preparava-se para rodar um filme quando a guerra rebentou. Fez, por assim dizer, o filme possível. Um filme que fala da impossibilidade do cinema e, ao mesmo tempo, da sua necessidade absoluta, da reinvenção da sua própria existência.
O filme apresenta-se como um ensaio audiovisual. Em grande parte, é feito de imagens foscas, enquadramentos enigmáticos e planos fixos e longos, que revelam a angústia da solidão e da espera. Também o medo e a incerteza. Não se aventura pelo exterior numa perspetiva de repórter de guerra. É sobretudo o seu oposto: um espelho do interior, em que o som se impõe à imagem, numa espécie de confinamento emocional. O ruído exterior, incómodo e extremo, vai dando lugar à música que o próprio realizador ouve. Noutra parte, em que se circula de carro por entre os destroços, encontramos uma sociedade de revolta contida, em busca de uma reorganização. O realizador não faz mais do que passar por ali. Aquele exterior não serve para indagar, apenas para ilustrar o seu interior e um abstrato sentido coletivo.
A arte, neste caso a música, é o grande veículo de uma transcendência procurada e desejada, numa espécie de instinto de sobrevivência. Isso manifesta-se de forma sublime em dois momentos: primeiro, numa canção entoada por uma voz feminina; mais à frente, num coro inteiro. Em contraste com as imagens do resto do filme, as cenas musicais são filmadas em alta resolução, como quem evoca uma utopia.
Noli me tangere é uma obra impressiva e experimental, que nos deixa inquietos e abismados, sem precisar de repetir slogans de revolta.
Armas e rosas
Da Bulgária chega-nos Geography Is Destiny, de Rayna Teneva, um documentário em moldes mais clássicos, mas que revela uma realidade cheia de contrastes. Acompanhamos a própria realizadora, de regresso à terra natal, no Vale das Rosas, na região de Kazanlak, à procura de desvendar uma realidade bizarra.
Do filme faz parte um vídeo comercial americano dos anos 80. O país dos Balcãs é um dos grandes produtores mundiais de rosas. Mais do que flores ornamentais, são sobretudo matéria-prima para a indústria cosmética: perfumes, sabonetes, cremes…
Geography Is Destiny desdobra-se em várias camadas. A primeira é pessoal: a história da própria realizadora, que se envolve e investiga, num retorno às origens que procura tudo menos o conformismo.
Deparamo-nos depois com a dimensão laboral. O filme fala-nos da exploração dos trabalhadores nas plantações de rosas. Um trabalho pesado e mal pago, entregue sobretudo à população de etnia cigana. Há aqui um contraste simbólico: a rosa, flor do amor e da beleza, é vista pelo lado dos espinhos, pelas condições de exploração em que é colhida. Teneva ouve e regista as queixas dos trabalhadores, procurando uma forma ética de os filmar.
Este manto de rosas encobre ainda outra camada. É que ali, camuflada pelo vale, fica a fábrica de armas Arsenal, cuja história antecede a Cortina de Ferro e que continua a produzir armamento, agora também para a guerra na Ucrânia.
Também a realizadora se camufla, fingindo procurar emprego na fábrica para conhecer melhor o seu funcionamento. É uma tarefa quase de detetive à paisana.
O filme divide-se entre estes dois campos: os trabalhadores que apanham rosas para sobreviver e a realizadora que explora o mundo das armas a partir daquela fábrica. Sempre com bons argumentos cinematográficos e uma câmara solta, fora das convenções, que paira à procura dos ângulos e dos objetos que quer filmar, sem perder de vista a humanidade de quem encontra.
O filme integra também o pavilhão da Bulgária na Bienal de Arte de Veneza.
O sabor dos espargos
Sublime é a curta-metragem de Avi Mograbi. O realizador israelita pró-palestiniano recuperou imagens rodadas para Once I Entered a Garden (2012) para criar um objeto autónomo, coerente e de beleza inebriante. Em Wild Asparagus, Mograbi acompanha o seu professor de árabe, Ali Al Azhari, à procura dos vestígios de Saffuriya, a sua terra natal, da qual foi expulso durante a Nakba de 1948. É um lugar feito de ruínas. Onde outrora havia casas, agora crescem plantas que vestem a destruição.
O mais belo é que Ali, com um entusiasmo quase infantil, como quem volta a ser criança, se enleva com os cheiros e sabores de toda aquela vegetação. Percorre o espaço, acompanhado pelo operador de câmara e pelo perchista, e vai provando, com voracidade e entusiasmo, aquelas ervas e rebentos, num mergulho nostálgico e feliz de quem regressa à infância. Às tantas, diz: «Eu quero voltar a viver em Saffuriya.» Os outros riem-se. Ali continua o seu caminho de descoberta e deslumbramento constantes: aqui estão estas ervas aromáticas, ali espargos selvagens. Arranca-os do chão e come. Come e dá a comer aos que o acompanham, que entram de forma muito natural no filme que estão a rodar.
Tudo ali desapareceu; sobram apenas cheiros e sabores. Mas é o suficiente para avivar a memória e trazê-la ao presente, com um sentido de pertença. Tudo isto ganha uma dimensão simbólica perante o massacre do povo palestiniano. Enquanto um espargo selvagem brotar daquelas terras, a memória não se apagará.
