You don’t Belong Here: Lamento por uma geração à nora

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Há cerca de 15 anos, escrevi para o JL um texto intitulado “Nem todos os romenos são patuscos”, depois de me ter deixado surpreender pela variedade de propostas do cinema romeno apresentadas no TIFF — terei visto uma percentagem significativa da produção romena de longas-metragens do ano em causa.

Verifiquei, como é natural, a existência de filmes bons, maus e medianos  (a maioria), numa variedade de géneros e formatos que ia muito além da onda do Novo Cinema Romeno, justamente aplaudida nos festivais internacionais, com nomes como Cristi Puiu, Cristian Mungiu, Corneliu Porumboiu ou Radu Jude.

A verdade é que essa magnífica vaga do Novo Cinema Romeno tem produzido repercussões ou réplicas (se quisermos recorrer a uma linguagem sísmica) ao longo dos anos. Como acontece em poucas cinematografias, o cinema romeno exportável parece gravitar em torno de uma linguagem comum, como se existisse uma consciência de movimento e de identidade: uma verdadeira escola. São filmes que procuram uma espécie de realismo mágico romeno, quando não mágico, pelo menos caricato, realizados com orçamentos baixos e uma estética naturalista, nos quais se evidencia a capacidade que os romenos têm de se rir de si próprios.

You Don’t Belong Here (2026), de Florin Șerban, vencedor do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, inscreve-se claramente nessa escola. Há, naturalmente, uma mudança de contexto. O humor em torno do período comunista e das suas consequências já está estafado, mas, apesar de acompanhar as transformações sociais, a perspetiva cinematográfica permanece num território próprio. Por outras palavras: existe uma consciência das mudanças sociais e dos novos conflitos, mas as lentes cinematográficas continuam colocadas num espaço estético e narrativo equivalente, deixando abertas portas de comunicação com obras importantes do cinema romeno.

Até determinada altura, You Don’t Belong Here pode parecer uma espécie de lado B de A Morte do Sr. Lăzărescu (2005), de Cristi Puiu. O sistema nacional de saúde funciona naquele lugar, mas sobretudo devido à dedicação extrema de um profissional: Marius Călimănescu (Adrian Văncică), um cirurgião conceituado que acumula essas funções com a direção de um pequeno hospital de província. É alguém que salva vidas quase em contraciclo com o próprio sistema.

Todavia, o sistema nacional de saúde é um subtema que rapidamente se torna secundário na economia narrativa de You Don’t Belong Here. O filme fala sobretudo de um conflito geracional, associado ao olhar preconceituoso e algo desesperado de uma geração mais velha sobre aqueles que estão prestes a entrar no mercado de trabalho.

Tal como acontece em Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental (2021), de Radu Jude, o acontecimento central da intriga é revelado logo no pré-genérico. No filme de Radu Jude, tratava-se da gravação erótica ou pornográfica de um casal, que se propagava de forma incontrolável pela Internet. Aqui, assistimos a uma incursão xenófoba desajeitada, que culmina no homicídio de um homem cigano. Desde o primeiro momento, sabemos o que aconteceu. Șerban coloca o clímax da ação no pré-genérico para abrir espaço a outras perguntas, sobretudo ao como e ao porquê, e também para nos mostrar a forma como as personagens lidam com o acontecimento. É uma subversão total da lógica do policial. O que está aqui em causa é o tecido humano e social.

O humor presente neste drama nasce essencialmente das personagens, das suas interações,  sobretudo dos diálogos,  e de uma espécie de nonsense realista que o cinema romeno explora muitíssimo bem, aproximando-se por vezes do burlesco.

O olhar centra-se numa geração que viveu o comunismo e que, entre as ilusões e as desilusões do que se lhe seguiu, manteve uma consciência social unitária e abrangente, mas vê nos filhos uma herança perdida. Não se trata apenas do caso extremo de Ioan Călimănescu (Teodor Butănescu), um jovem aparentemente sem virtudes, mas de toda uma geraçã. Existe uma atitude crítica constante em relação aos estagiários do hospital, aos jovens agentes da polícia e, de uma forma mais geral, àqueles que se preparam para assumir responsabilidades sociais. Explora-se a ideia de uma geração perdida, amorfa e desinteressada, ou com valores e princípios invertidos.

Ao médico viúvo, extremamente competente na sua profissão e dotado de uma ética conciliável com a diversidade sociológica envolvente, falta-lhe, nas suas próprias palavras, alguma coisa para se tornar um grande homem. E é essa carência que faz dele uma grande personagem. Apesar de parecer fazer tudo corretamente, Marius falha na capacidade emocional e relacional de chegar ao outro, sobretudo ao filho.

Essa incapacidade dá origem a algumas cenas caricatas, porque existe um tom forçado e esforçado nas poucas relações que Marius mantém. O filho, por seu lado, é um vazio ético e moral que se concretiza numa profunda carência afetiva. Silviu Obădău (Alex Conovaru), o polícia e amigo de Marius, constitui uma espécie de baluarte ideológico invertido. E talvez a única possibilidade de fuga que Florin Șerban nos oferece seja Dana (Cristina Richter), a mulher que ama, mas não é amada.

Florin Șerban inspirou-se, na construção dramática do filme, numa frase atribuída a Hannah Arendt: “O revolucionário mais radical tornar-se-á conservador no dia seguinte à revolução.” Aqui acontece isso e também o seu inverso. É um filme extremamente pessimista, que situa o fim do mundo não num apocalipse ecológico ou bélico, mas no apocalipse emocional e relacional de uma geração perdida. O dilema ético com que Marius se depara no final leva-o à autodestruição moral e psíquica. A luz ao fundo do túnel só se torna possível através da efabulação psicótica.

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