Locarno, Los Días Libres: O ano do Eclipse

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Enquanto o Festival de Veneza tomou a decisão bizarra e, no mínimo, anacrónica de selecionar apenas um filme realizado por uma mulher para a sua principal competição, Locarno demonstra que o cinema feito por mulheres, ou no feminino, está bem e recomenda-se, apresentando vários filmes nas secções competitivas. Todos têm qualidades e defeitos, mas todos enriquecem a programação de qualquer festival.

Vimos e analisámos vários filmes de realizadoras, com amplitudes e texturas diferenciadas, que abordamos em diferentes textos, por uma questão de organização.

Nestes filmes, observamos mulheres em diferentes fases da vida e em contextos distintos, mas que, de alguma forma, servem sempre para refletir sobre a condição feminina.

O subgénero do coming-of-age já está muito estafado, mas há sempre margem para abordagens criativas. Dito isto, importa esclarecer que Los días libres, a primeira longa-metragem da argentina Lucila Mariani, com coprodução portuguesa da Persona Non Grata, não é necessariamente um coming-of-age, embora possa facilmente parecê-lo. A questão é que, no final do filme, não podemos afirmar se a jovem pré-adolescente cresceu ou se permanece mais ou menos na mesma. A única coisa que sabemos é que, do lado de  dentro e talvez do lado de fora, acontecem coisas esquisitas.

Los días libres, como o nome indica, é, antes de mais, um filme sobre o ócio. Durante os longos meses de verão, uma rapariga que vive num lugar remoto da Argentina passa horas em casa sem nada para fazer. Esse estado de férias, marcado por um vazio de tempo e de objetivos, numa idade indefinida, é também bem retratado pelo posicionamento da câmara, que descobre novas perspetivas dos objetos, muitas vezes de baixo para cima, correspondentes ao olhar de uma criança entediada.

Ora, nos dias que correm, o tédio infantojuvenil é facilmente preenchido pelo aparato tecnológico e por todos os seus reconhecidos perigos: dispositivos que nos afastam dos mais próximos para nos aproximarem dos mais distantes ou até de desconhecidos. É, em parte, esse o caminho que o filme segue. Sem alertar para os perigos da Internet de forma moralista ou proativa, retrata antes o universo desta pré-adolescente, conflituosa nas relações com os seus pares, mas que se deixa seduzir por uma espécie de seita xamânica virtual. O desafio consiste em seguir uma série de passos precisos até atingir um estado de transe, de alienação do mundo, uma existência metafísica.

Tudo isto acontece e rima com um eclipse anunciado (que não será aquele que ocorreu durante o próprio Festival de Locarno e foi visível em vários locais do mundo), tornando as pessoas mais frágeis e suscetíveis de ficarem eclipsadas. Estar eclipsado define-se aqui como um estado de alienamento, abstração e vegetabilização sem retorno.

Descobre-se facilmente, neste ponto, uma metáfora não apenas para as relações familiares e entre colegas, mas também para a sociedade em geral. Há muito que vivemos em mundos eclipsados ou prestes a eclipsar-se. Pode dizer-se que sim.

O filme desenvolve-se através de linhas difusas e não moralistas, mas assenta numa ideia clara e bem definida desde os primeiros instantes. Talvez o seu maior problema seja precisamente esse: apesar das pequenas intrigas familiares ou sociais, falta-lhe conflito ou, pelo menos, um caminho que ultrapasse a repetição da mesma ideia.

A última parte do filme é um mero divertimento em torno de ideias já apresentadas, sem particular rasgo, dando a impressão de que a autora simplesmente não sabe como chegar ao fim. Não obstante, os últimos minutos são cinematograficamente interessantes e ousados, procurando um rasgo que provavelmente se manifestará num filme futuro, depois de a Lua descobrir o Sol.

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