At Night: Dar lugar ao Outro no Underground de Paris

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Devo confessar que normalmente embirro com filmes de estilo panfletário, com a ideologia demasiado exposta, mesmo quando subscrevo as suas ideias e causas. Mas, em At Night, de Beatrice Gibson,a militância assumida desde o primeiro instante transforma-se numa virtude, pois ela própria está em debate. Através da sua estrutura livre, o filme afirma-se como um objeto refrescante e extremamente original no panorama cinematográfico contemporâneo. Em alguns aspetos, nomeadamente na vinculação a causas justas e mediáticas, aproxima-se das tendências contemporâneas das artes performativas. Não é um filme de uma só causa, mas de múltiplas causas que surgem em catadupa no underground de Paris. Este underground é também literal, uma vez que o filme explora visualmente o metro parisiense.

At Night constrói o seu artefacto de forma livre, sem se preocupar com convenções narrativas, colocando-se num território próximo do ensaio documental. Em vários momentos, evoca Chantal Akerman, pelo olhar pessoal e desinibido, mas também pela referência subliminar da figura materna.

O filme desdobra-se em camadas. Percebemos, desde o primeiro instante, que estamos perante os submundos de Paris. É um cinema que olha para as margens, mas procura margens capazes de verbalizar o seu próprio discurso, dotadas de uma consciência política que permita a reflexão sociológica e a autorreflexão. Ou seja, pessoas em cujo turbilhão quotidiano, marcado pela luta pela subsistência, ainda sobra espaço para um pensamento estruturado.

Numa primeira camada, encontramos uma realizadora à procura do seu próprio filme. É uma diegese pessoal. Beatrice Gibson é uma anglo-francesa residente em Londres que se encontra em Paris, longe da família, com a missão de realizar a sua primeira longa-metragem. Diga-se, a propósito, que a realizadora construiu um percurso notável no domínio da curta-metragem, conquistando prémios relevantes. Há um drama existencial, quase identitário, em que a angústia da criadora é apresentada de forma bastante crua e transposta para o mundo. É uma cineasta de causas e reúne seis mulheres em torno delas, todas com uma história rica de ativismo e sublevação feminista.

O feminismo impõe-se de forma muito clara e quase solene. É marcante a cena em que as mulheres se sentam num bar parisiense e, num estilo bastante akermaniano, conversam sobre o desejo sexual e a família, convocando conceitos teóricos do passado e do presente. Recupera-se o lema de Ti-Grace Atkinson, “O feminismo é a teoria, o lesbianismo é a prática”, para discutir a heterossexualidade. Alguém volta a pôr em causa o conceito conservador e burguês de família, defendendo novas famílias socialmente construídas. É nesse ponto que Didi, Diocouda Diaoune, negra, suburbana e sem casa onde morar, mas sempre dotada de um discurso coerente e politizado, contrapõe: para uma mulher negra suburbana, a ideia de família é quase uma utopia.

Didi reivindica a sua condição marginal, como se abrisse um novo nível para a causa: se as mulheres são socialmente discriminadas, o que dizer das mulheres negras nas sociedades ocidentais? Chega mesmo a confrontar a realizadora, dizendo-lhe: “Tu ganhas sempre.”

A partir daí, acontece algo engenhoso e pouco habitual. Beatrice retira-se do filme para lhe dar espaço. Passa a ser o filme de Didi.

Didi vagueia pela noite de Paris e vai ao encontro de outras margens. Descobre o mundo do travestismo e das identidades trans, de pessoas ainda mais remetidas para a periferia do que ela própria. É o submundo do submundo. Dá-lhes espaço para contarem as suas histórias, revelarem os seus rostos e afirmarem as suas vozes. Talvez, no final, Didi esteja um pouco menos sozinha.

At Night é um filme assumidamente político, ensaístico e reflexivo, que questiona o modelo da sociedade francesa e, em particular, da parisiense. Expõe a discriminação social, racial, de género e de orientação sexual. Vai ao mundo e aos seus submundos. É construído como um grande gesto de liberdade e quase sugere uma Angela Davis francesa, capaz de liderar um movimento, uma figura ideal da esquerda: a mulher negra agredida e aguerrida, que luta, reage e articula um discurso político urgente e coerente.

Plasticamente, o filme é realizado com grande liberdade e beleza. A câmara de 16 mm, comandada pelo diretor de fotografia Ben Rivers, dá-nos textura e profundidade nos quadros da noite underground parisiense. Envolve-nos no seu impulso diatríbico, abrindo espaço para o Outro, ao qual talvez não consigamos verdadeiramente chegar, mas a quem podemos, pelo menos, dar voz.

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