Há filmes que plantam árvores. Este ano, o CineEco fez o gesto simbólico de criar um bosque, plantando 32 árvores de espécies autóctones (pilriteiros, azereiros, bétulas e tramazeiras) na Quinta da Nogueira, em Seia, junto ao estádio de futebol. O objetivo é ambicioso: criar um anfiteatro natural onde, entre outras atividades, possam vir a ser exibidos filmes do próprio festival.
Com 31 anos de existência, o CineEco é um dos mais antigos festivais de cinema ambiental da Europa. Realiza-se desde 1995 em Seia, em plena Serra da Estrela, a caminho do ponto mais alto de Portugal continental.
O programa é variado, indo além do cinema e procurando um enquadramento local e regional, sem perder de vista as dimensões nacional e internacional. A programação espelha alguns dilemas, sobretudo na dicotomia entre a qualidade dos filmes e a relevância ou presença das causas ambientais, a que se acrescenta a necessidade de envolvimento local. Por outras palavras: boas causas podem dar péssimos filmes, e ótimos filmes podem não espelhar causa nenhuma.
Nesta edição houve um pouco de tudo, mas a maioria dos filmes revelou um bom equilíbrio entre os dois vetores. É o caso de Derek vs Derek, de James Dawson, um bem-disposto filme britânico que expõe duas visões antagónicas da agricultura e do uso da terra, e o potencial de conflito daí resultante. Ganhou o prémio principal. Ou de A Praga, de Sarah Arnold, que mostra como é possível, com um critério um pouco mais abrangente, selecionar uma comédia policial para falar de problemas que afetam a fauna e a agricultura em França.
No meio de uma programação vasta, optámos por destacar três documentários de cariz jornalístico, de qualidade cinematográfica variável, mas que gritam bem alto mensagens que o mundo deveria ouvir.
1. O chá que bebemos está contaminado pela violência colonial
Kikuyu Land acompanha sobretudo o trabalho de investigação da jornalista Bea Wangondu, que também assina a realização, juntamente com Andrew H. Brown. Bea investiga a exploração das grandes plantações de chá no Quénia, propriedade de conhecidas multinacionais.
A investigação começa pela questão da propriedade. O Sr. Mungai, engenheiro com vocação para músico e advogado, instaura um processo contra o Estado queniano para recuperar as terras que pertenciam aos seus antepassados. É uma luta insana, simbólica e muito arriscada. Pelo caminho, percebemos que as explorações de chá perpetuam práticas de violência e trabalho semiescravo herdadas dos tempos do colonialismo. Tudo isto num clima de violência, com homicídios e outros crimes graves, num contexto marcado por mecanismos de poder habituados a um antigo sistema de corrupção. Alguém afirma que os líderes africanos que não se alinham com os antigos colonizadores acabam mortos.
É um filme-denúncia, tal como Naza, que pretende fazer aquilo que os meios legais e políticos convencionais não conseguem alcançar. E procura transmitir a adrenalina de uma investigação jornalística.
De resto, Kikuyu Land tem uma estrutura bastante convencional, apoiando-se na voz-off de Bea, nas suas dúvidas e conquistas. Tem várias fragilidades. A mais estranha e dispensável é o aviso inicial de que os autores não se reveem necessariamente nas afirmações dos entrevistados. Enfim, quando um filme mostra de forma tão explícita o risco de vida corrido pelos seus autores em prol da denúncia de uma situação absurda, as considerações cinematográficas acabam por passar para segundo plano.
2. A corrida ao lítio pode derrubar os indígenas da Bolívia
A corrida ao novo ouro já não se faz com cowboys e exploradores, mas com grandes empresas internacionais, munidas de tecnologia de ponta e sofisticadas ferramentas de propaganda. A pressão popular tem conseguido travar alguns projetos de prospeção de lítio em solo europeu, pelo que a Europa, consciente do crescente valor deste metal, procura alternativas além das suas fronteiras.
A Bolívia é, mais uma vez, um dos alvos mais apetecíveis, pelas suas enormes reservas de lítio. As populações indígenas, cujos antepassados foram dizimados pelos colonizadores espanhóis, enfeitiçados pela cobiça do ouro, veem-se agora confrontadas com missões de empresas europeias interessadas em extrair lítio das suas terras.
Materia Prima é fruto de uma investigação extraordinária e profunda do alemão Jens Schanze. O realizador consegue traçar um quadro geral, rico em pormenores importantes. Filma ativistas e indígenas, mas também elementos das equipas das empresas internacionais, chegando mesmo a mostrar reuniões em que são discutidas, sem grandes disfarces, estratégias para alcançar os seus objetivos.
Ao contrário de Kikuyu Land, Materia Prima não é um filme militante, no sentido em que procura construir uma visão que não seja parcial. Expõe o grande dilema daquelas populações: a promessa de riqueza, de saída de uma vida de escassez financeira, contraposta à possível deterioração das suas terras ancestrais. Também não é perentório quanto à solução. Não defende diretamente a interdição da exploração de lítio naquelas montanhas, mas antes a necessidade de estudos de impacto ambiental e da auscultação das populações. Obviamente que a imparcialidade é apenas aparente, mas, enquanto recurso retórico, torna-se porventura mais eficaz.
Cinematograficamente, é forte. Schanze tem um olhar de cinema: sabe onde colocar a câmara e desenvolve uma linguagem própria. Narrativamente, recorre a um engenhoso dispositivo: a leitura em voz-off de excertos das crónicas de Felipe Guamán Poma de Ayala, um indígena que escreveu uma longa carta ao rei Filipe III de Espanha, denunciando os abusos da colonização. Um eco surpreendentemente atual do período colonial.
A conclusão aproxima-se da de Kikuyu Land: a independência política dos territórios de África e da América do Sul não impediu o aparecimento de novas formas de colonialismo.
3. O governo norueguês ocupou as terras dos Sami com turbinas eólicas
Da tão civilizada Noruega, um dos países mais ricos do mundo, chega-nos uma história surpreendente. Com autorização do Estado norueguês, empresas privadas instalaram gigantescas turbinas eólicas nas terras de pastoreio do povo Sami, na região de Fosen. A instalação avançou antes da decisão definitiva dos tribunais, que acabaram por dar razão aos pastores de renas. A sentença favorável, no entanto, não fez com que as turbinas fossem retiradas.
Let Our Mountains Live, de Håvard Bustnes, é um filme empenhado que acompanha a luta dos ativistas Sami. Não procura apresentar uma perspetiva equilibrada dos acontecimentos, mas convencer-nos da justeza da sua causa. Em parte, é um filme de tribunais, acompanhando os processos que se acumulam e as argumentações em torno do caso, em que o governo norueguês fica muito mal na fotografia. Por outro lado, aproxima-nos dos ativistas, das razões e das estratégias da sua luta, incluindo manifestações que chegam à ocupação do Ministério da Energia.
Tal como em Materia Prima, há aqui um conflito entre interesses opostos: por um lado, a produção de energia renovável e a criação de riqueza, com os seus benefícios ambientais e económicos; por outro, o direito do povo Sami às terras ancestrais, onde pratica a pastorícia de renas, também com fins comerciais.
O filme é muito competente em termos cinematográficos e transmite uma certa aura de urbanidade em torno do conflito. Há um imperativo de cordialidade e civismo que parece inerente à sociedade norueguesa. Mesmo nas discussões mais acesas, não se perde o sentido de civismo, nem algum humor. Até os polícias parecem extremamente gentis e cuidadosos quando retiram em braços as ativistas sentadas no chão, à entrada do ministério.
Mas, por mais civilizada que seja a forma como se desenrola o conflito, a questão de fundo permanece: que valor tem uma decisão judicial favorável aos direitos de um povo indígena quando o próprio Estado resiste a aplicá-la? E a história ainda não chegou ao fim.
