Destroy All Girls: Um feel-good movie com uma pedra no sapato

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Em jeito de disclaimer: Destroy All Girls é um slogan quase clandestino da Senate, uma marca de artigos de skate popular nos anos 1990. O slogan era discretamente estampado nas etiquetas de algumas peças de vestuário. Começou com uma piada…. Uma piada não necessariamente engraçada nem inocente.

Neste contexto, o slogan serve bem as intenções da realizadora Erin Vassilopoulos e da argumentista Ani Mesa-Perez, embora possa criar uma impressão errada: não se trata do retrato de um serial killer, nem propriamente de um manifesto feminista. Todavia, o slogan é sintomático de um machismo estrutural que se reflete num ambiente do qual se esperaria apenas liberdade de movimentos e de espírito.

Destroy All Girls é um feel-good movie com uma pedra no sapato. Constrói-se ao ritmo alucinante de um videoclipe permanente, no qual tudo é movimento. O culto da captação da imagem no universo do skate é usado em prol da própria realização, abrindo camadas visuais e perspeticas

Se os momentos mais esperados dos filmes musicais são as cenas de sapateado, aqui o auge está na própria patinagem, nos truques, nos malabarismos, no ritmo e na adrenalina. É como se estivesse a inventar-se um subgénero cinematográfico. Qualquer fã de skate irá delirar com o filme.

Mas Destroy All Girls é bastante mais do que isso. O filme desliza sobre rodas para qualquer espectador. Dá um verdadeiro prazer esta ilusão de liberdade e de vida selvagem, protagonizada por uma espécie de comunidade hippie new age, reinventada sobre rodas, que define a vida através do improviso, da joie de vivre e da adrenalina. 

Alex, olhando de fora para dentro e de dentro para fora, descobre nas rodas dos seus patins, que se prolongam nas rodas da carrinha de Cameron, uma possibilidade de fuga. É um filme em fuga: da mãe destruidora de raparigas, do irmão paraplégico, do emprego monótono, da vida programada e das pessoas banais.

No meio desse movimento de fuga, quase se celebra uma história de amor. Uma paixão assolapada, como só pode ser a de quem vive sempre no fio da navalha, no limite. Alex é uma mulher num mundo masculino que contém uma toxicidade estrutural perante a sua presença. Ela enquadra-se, em parte, porque não partilha uma ideia clássica de feminilidade. Chama-se Alexia, mas prefere ser tratada por Alex, e a mãe diz-lhe constantemente que parece um rapaz.

Destroy All Girls retrata uma luta quase inconsciente pela liberdade de uma rapariga socialmente oprimida pela mãe. É o assassinato simbólico de uma mãe já morta. Só que os caminhos libertários do universo dos skaters revelam-se também eles extremamente incoerentes e portadores de uma toxicidade que permanece por questionar. O movimento é igualmente um espaço de transgressão, apesar da aparente camada emocional e do seu sentido romântico. Não é na fuga que Alex se encontra, mas precisa de se perder para conseguir encontrar-se. Sofre, cresce e fortalece-se, após o trauma do irmão herói paralisado. Encontra a sua forma particular de se afirmar livre e de se afirmar mulher.

Mais doce do que amargo, Destroy All Girls é um relâmpago, um filme alinhado com a velocidade dos patins, como um imenso videoclipe dos Sonic Youth que queremos voltar a ver e a ouvir. A banda sonora é, de resto, um dos seus pontos mais fortes.

Destroy All Girls vê-se de um só fôlego, com uma rara sensação de prazer, semelhante à que encontramos, por exemplo, em Licorice Pizza (2021), de Paul Thomas Anderson.

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