O mundo é um lugar pouco recomendável para uma rapariga crescer

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Se em Brave New Love, de Maria Bäck, encontramos uma sociedade tão progressista em termos de género que quase poderíamos chamar-lhe, num sentido utópico, pós-feminista, em Blossoming, de Kamila Serwicka, e If Luck Will Come, de Camille Bildsøe, estamos num espaço diametralmente oposto. O primeiro aborda a violência de género no interior de uma família da província polaca; o segundo leva-nos às entranhas da opressão exercida pelo regime talibã sobre as mulheres e as crianças afegãs.

Blossoming impressiona, desde logo, pelo seu dispositivo. Muitos de nós já tivemos a sensação de que a vida é um filme, mas raramente temos uma câmara à mão para registar os momentos decisivos. A jovem realizadora polaca, por algum motivo, tinha-a. E não parou de filmar a própria vida, sobretudo o ambiente familiar, nas situações mais graves e adversas. A câmara é visível e a sua presença, assumida.

É um filme feito com meios limitados, a partir do olhar de quem vive naquela casa. Kamila mora com as duas irmãs, a mãe, o pai e a avó numa localidade da província polaca. A mãe trabalha num armazém; o pai é alcoólico e exerce violência física e psicológica sobre a mulher e as filhas. Há momentos em que se afasta de casa, outros em que regressa arrependido. Até que a mãe avança judicialmente com a separação e deixa de se comover com as suas tentativas de regresso. Tudo isto é narrado com a autenticidade de quem está lá dentro.

Sabemos que a violência doméstica atravessa classes sociais e fronteiras, em muitos países europeus, Portugal incluído. O filme tem, por isso, a relevância imediata de expor um caso que está longe de ser excecional. Fá-lo de forma contundente, transmitindo uma intimidade que nos aproxima daquele mundo feminino atormentado pela violência de um só homem.

Mas Blossoming é mais do que isso. A generosidade de Kamila ao partilhar imagens do seu sofrimento faz da própria realização uma espécie de personagem do filme. Filmar torna-se parte do processo de denúncia e de fuga àquele ambiente, uma estratégia de sobrevivência. Como quem diz: se isto causa tanto sofrimento, que ao menos sirva para alguma coisa; que a minha dor possa ser partilhada com o mundo. Tudo isto conserva a textura credível de um filme homemade autoconsciente, assente num pacto de autenticidade.

Blossoming é um coming of age forçado, talvez precoce, vivido entre a violência doméstica e uma ligação contraditória ao agressor. Crescer significa, em certo sentido, matar o pai; sem que esse gesto resolva, por si só, a experiência traumática.

A esse nível, a diferença em relação a If Luck Will Come é extrema. No filme de Camille Bildsøe não há um pai para matar. A força opressora vem de fora e é demolidora. As crianças ainda inventam jogos de família; o problema é a inevitabilidade de crescer. O mais angustiante no filme é a ideia de um coming of age em direção a um buraco negro, a um tenebroso vazio. Para as raparigas afegãs, crescer significa morrer por dentro.

As opções estéticas também divergem. Se em Blossoming Kamila assume a presença da câmara, num registo próximo do cinema vérité e do diário confessional, em If Luck Will Come a câmara permanece invisível. As crianças comportam-se como se ninguém as estivesse a filmar, quase como atores a representar a própria vida. Essa impressão exige tempo de rodagem e uma familiaridade que neutralize a presença da câmara, afastando a artificialidade do dispositivo. A sua aparente invisibilidade não diminui a sensação de proximidade: os planos procuram a intimidade das personagens na profundidade dos seus olhares, como se tentassem chegar, pela retina, à alma. Também porque se mantém sempre ao nível dos olhos das crianças, como se fossem crianças a filmar crianças. Aliás,apesar da tragédia em volta, If Luck Will Come passa por filme infantojuvenil, não é por acaso que passou na secção de crianças em Locarno.

If Luck Will Come acompanha um projeto de circo para crianças em Cabul, centrado sobretudo no malabarismo. O filme é muito bonito e, em certos momentos, lembra os episódios de Children’s Games, de Francis Alÿs. Há uma esperança comovente na forma como capta a alegria daquelas crianças a fazer malabarismo. É como se o mundo à volta parasse e elas tivessem direito a momentos de felicidade absoluta.

O filme acaba por se concentrar em duas histórias: a de um rapaz cujo pai, fisicamente incapacitado e sem dinheiro, se encontra num beco sem saída económico; e a de uma rapariga obrigada a deixar a sua casa, também por razões financeiras. O contexto é ainda mais demolidor do que aquilo que vemos. Pela rádio, ouvimos anunciar o agravamento das restrições impostas pelo regime talibã sobre as mulheres. Para muitas raparigas, o futuro vai-se estreitando até às paredes de casa, sem sequer lhes ser permitido continuar a estudar.

Não foram apenas os Estados Unidos e os seus aliados que deixaram o povo afegão à mercê do regime talibã. Também os meios de comunicação internacionais parecem tê-lo esquecido, desviando a atenção para outras tragédias. Esperemos que o filme de Camille Bildsøe lhe traga um pouco de luz.

Do Afeganistão à Palestina, do Irão a alguns lares do tão civilizado Ocidente, o nosso mundo continua a ser um lugar pouco recomendável para uma rapariga crescer.

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