Já muito foi escrito sobre NAZA, dos israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor, um filme que se tornou um fenómeno pela denúncia que faz da atuação do exército de Israel em Gaza, onde foram registadas mais de 70 mil mortes de palestinianos, incluindo pelo menos 20 mil crianças. O mais importante para os realizadores será que o filme seja visto e debatido fora dos círculos militantes, particularmente na sociedade israelita. NAZA é um filme urgente, com uma grande causa, mas que também defende a causa do cinema. Olhámos para o filme sob dez pontos de vista.
- NAZA é um filme-denúncia. Resulta de uma ampla investigação jornalística, que reuniu mais de uma centena de fontes com conhecimento dos sistemas militares usados em Gaza. No filme, ouvimos 24 militares e elementos dos serviços de informações israelitas, muitos provenientes de unidades de elite. Não é um objeto audiovisual executado com o objetivo de manipular informação em prol de uma ideia, como se fosse uma campanha política. É antes um conjunto de entrevistas a pessoas envolvidas nas operações que aceitaram falar sobre os seus atos. São essas vozes que se autodenunciam. Expõem os seus métodos e o assassínio massivo de civis, em relatos que dão corpo à definição de genocídio consoante consta mo dicionário: “Destruição metódica de um grupo étnico ou religioso pela exterminação dos seus indivíduos” (dicionário Priberam).
- O genocídio contra o povo palestiniano é uma evidência que não precisaria do filme para ser demonstrada. Contudo, NAZA expõe o processo de forma particularmente sóbria e contundente. Os testemunhos revelam a consciência dos atos e descrevem como os ataques que matam civis são deliberadamente concebidos e fazem parte de um plano maior de destruição. Servem para descrever o requinte dos métodos israelitas e poderiam até contribuir para um julgamento posterior. Só não vê quem não quer ver. O objetivo do filme parece claro: sensibilizar a opinião pública para fazer acabar com os bombardeamentos sobre a população civil, travar o genocídio
- Um dos pontos fortes de NAZA é o ângulo escolhido. Os realizadores já tinham correalizado No Other Land, centrado na perspetiva das vítimas. Desta vez, ficam em Telavive e confrontam os agressores com os seus atos. Cinematograficamente, é uma perspetiva rara e enriquecedora. À exceção da cena final, não vemos as consequências das ações descritas: mantemo-nos sempre ao lado de quem as provocou. Não somos confrontados com a violência concreta das imagens. Mas a violência sugerida pelas palavras pode ser igualmente chocante e demolidora.
- Nas conversas com os militares israelitas, Yuval Abraham tenta compreender como é possível bombardear locais onde sabem que estão civis, alguns deles crianças e até bebés. Pergunta-se e pergunta-lhes. Faz um esforço para entender o outro, como pessoas de semblante humano, que se sentam ali ao seu lado, podem ser capazes de cometer tamanhas atrocidades. Mas não há explicação que as justifique. É uma perplexidade semelhante à que suscitou a Alemanha nazi: como foi possível normalizar a perpetração de atos genocidas? Encontram-se sinais de uma normalização semelhante nos testemunhos de NAZA, que se pode resumir na frase: “Eu estava apenas a cumprir ordens.”
- O ataque terrorista de 7 de outubro de 2023 não é ignorado nem suavizado: é referido no filme como um crime condenável. Em nenhum momento o documentário defende ou justifica o ataque do Hamas. NAZA denuncia antes o genocídio do povo palestiniano, que teve como pretexto os ataques de outubro. E, na verdade, os realizadores israelitas estão a denunciar os crimes de guerra do seu próprio Estado, do país de onde vêm.
- Entre as primeiras reações das autoridades israelitas esteve uma ameaça aos próprios realizadores. Após a estreia do filme em Veneza, onde recebeu o Prémio Especial do Júri, o ministro da Cultura de Israel ameaçou promover a retirada da nacionalidade aos cineastas, acusando-os de traição à pátria. Esta ameaça à cidadania dos realizadores é, por si só, reveladora. Israel apresenta-se como o único regime democrático do Médio Oriente, mas a qualidade da sua democracia revela-se cada vez mais questionável.
- O filme heróico de Yuval Abraham e Rachel Szor (sim, eles são uns heróis!) lembra-nos que nem todo o povo israelita, e muito menos os judeus em geral, é cúmplice dos massacres contra os palestinianos. Há vários indivíduos e grupos judaicos, dentro e fora de Israel, que levantaram a voz contra o genocídio levado a cabo pelo governo de Benjamin Netanyahu. A confusão entre o governo israelita e o judaísmo é frequentemente promovida por Netanyahu como estratégia de propaganda, mas não corresponde de todo à verdade.
- NAZA é um filme com uma causa explícita muito forte. Um cinema urgente que acredita na possibilidade de mudar as coisas. É por isso que, após a passagem pelo Festival de Veneza, chegou rapidamente às salas de vários países. A partir de novembro, estará disponível gratuitamente no portal do jornal The Guardian, que produziu o filme. Há a noção de que NAZA deve ser visto rapidamente pelo maior número possível de pessoas, pois os crimes contra civis perpetuam-se em Gaza.
- O objeto de NAZA é fundamentalmente jornalístico, pelo que seria mais expectável que, em vez de passar pelo cinema, seguisse imediatamente para canais de televisão ou plataformas de streaming, à semelhança de outras reportagens. Mas há aqui uma afirmação de cinema. Yuval Abraham e Rachel Szor são realizadores e, como tal, fizeram um filme. Um filme com elementos cinematográficos concretos e de qualidade, que passam pelo conceito, pelo cuidado na mise-en-scène, pelo enquadramento, pela montagem… Há toda uma linguagem cinematográfica envolvida, apesar das restrições impostas pelo contexto: grande parte do filme é rodado na penumbra, nos telhados de Telavive. À dupla não importa apenas o que se diz, mas também como se diz. É cinema.
- Ao afirmar-se como cinema, o filme defende também, por si só, a causa do cinema: a exibição de filmes em condições apropriadas, de preferência numa sala de cinema, numa altura em que esta está a perder espaço para as plataformas de streaming. Faz ainda mais do que isso: NAZA é uma prova de fé na capacidade do cinema para mudar o mundo.
