Para aqueles que estão sempre à procura da alternativa da alternativa, tenho a dizer que estive num festival tão underground que faz qualquer outro evento de nicho parecer um Big Brother ou uma Odisseia. E, se querem mesmo saber, recomendo a experiência.
Conheci Dieter Wieczorek em Vila do Conde e depois voltei a encontrá-lo em Locarno. Um cinéfilo alemão, que vive há muito em França, que anotou o meu nome num caderno para me convidar a integrar o júri do seu festival.
O Festival Signos da Noite decorre, pelo menos, em Paris e Lisboa e já vai na décima edição portuguesa. Eu, jornalista na área há mais de 20 anos, confesso que me senti embaraçado por nunca ter ouvido falar de tal acontecimento na minha própria cidade. Mas, enfim, a oferta cultural tornou-se tão abundante que são muitas as coisas que me escapam por entre os dedos… ou que se escondem da vista.
Na sua 10.ª edição em Lisboa, o festival decorreu no Desterro, um bar e associação da qual já paguei quotas, mas que raramente frequento. É um espaço alternativo, com uma programação alternativa e malta alternativa e fixe.
O festival não decorreu durante o horário de funcionamento habitual do espaço. O Desterro abriu as portas mais cedo para receber Dieter e quem o quisesse acompanhar. Não foram muitos.
Cumpri zelosamente as minhas obrigações de jurado da secção Transgressões, correspondente a três sessões num fim de semana, e pouca mais gente vi além dos meus colegas de júri. Problemas de comunicação? Com certeza que sim.
Um festival literalmente underground, pois decorreu na cave do Desterro. Um daqueles sítios em que não é preciso ninguém estar a fumar para ficar com a roupa a tresandar a tabaco. Umas cadeiras de plástico dobráveis, um projetor com a janela mal ajustada e de cores azuladas e a excitação de quem está a fazer qualquer coisa de clandestino, como os cristãos nas catacumbas ou os comunistas durante o Estado Novo. Na verdade, estávamos apenas a ver filmes e não havia perigo de a polícia nos vir prender.
Dieter faz o festival sem qualquer tipo de apoio, nem particular conhecimento ou talento para os aspetos exteriores ao cinema em si, como a promoção e a divulgação. Faz o festival porque sente uma vontade urgente de mostrar aqueles filmes. E as suas escolhas revelam uma estética e uma cinefilia. Não o faz por arrogância, nem em busca de dinheiro ou projeção, apenas por generosidade e gosto pelo cinema. Um gesto cinéfilo e poético que me comove.
Vi filmes de índole experimental, muitos dos quais poderiam estar expostos como videoinstalações ou servir de base para um VJ numa discoteca, e que terão passado por secções experimentais de festivais maiores. Todavia, encontra-se nas escolhas uma linha programática, uma linguagem.
Na tentativa de estender o bonito gesto de Dieter, destaco aqui alguns filmes que me impressionaram.
Talvez o filme mais objetivamente sobre cinema seja GodCocteauTheory (2026), de Neil Harvey e Jon Hammerbeck. Um filme que recupera a teoria de Jean Cocteau sobre a arte, o espiritualismo, a morte e o livre-arbítrio, em que a arte surge como um semideus, cruzando-a com palavras de Jean-Luc Godard e Chantal Akerman. Tudo isto com uma composição visual no limite da sua própria existência, como se o cinema se estivesse a rasgar a si próprio, anunciando a sua morte. Há, assim, uma coincidência entre a distorção do que estamos a ouvir e a do que estamos a ver, como se os papéis do observador e do observado fossem mudando. É um resultado conseguido do trabalho de dois artistas livres de espírito, que se compreendem e complementam nas linguagens paralelas do som e da imagem.
Ainda em torno do cinema, Organising Principles of Experience, da brasileira Gabriela Tropia, revela um uso alternativo e verdadeiramente artístico da inteligência artificial. Todo o filme é uma carta de amor a Maya Deren, cineasta experimental ucraniano-americana. A inteligência artificial é um milagre que a traz de volta à vida. Dá-lhe voz e corpo. Permite uma conversa e até mesmo uma discussão. Mais do que tudo isso, permite ainda que ela, Maya Deren, descreva três projetos de filmes, muitas vezes de pendor surrealista, e que estes se construam à nossa frente, quase como numa receita instantânea.
Diz-se «quase» porque, como qualquer bom ilustrador, as imagens desviam-se da ilustração óbvia. São prompts rebuscados, dirigidos a um algoritmo com muita vontade própria (na verdade, esta é a certeza da intervenção criativa da realizadora). Em alguns momentos, lembra Wes Anderson, pela capacidade surrealizante de fantasiar através de histórias concretas. Isto embora, tecnicamente, o expediente da inteligência artificial seja muito mais pobre do que as animações do cineasta americano. Mas Organising Principles of Experience é um bom exemplo de como, apesar de todos os perigos, a IA pode ser usada de forma perfeitamente autoral.
No meio disto tudo, Opera, de Igor Zelić, talvez seja a obra mais intimamente cinéfila. Filme de um único plano e de um único enquadramento, que funciona como um estudo sobre as luzes e as sombras, o tempo e o espaço, pilares da fotografia e da arte cinematográfica. Um filme com um tempo próprio, que exige a predisposição para um mergulho, como quem fica parado e se deixa deslumbrar por um quadro de Goya. Opera também é um quadro. No entanto, move-se através das alterações de luz vindas de uma única fonte. É um quadro dinâmico, como as pinturas digitais de Brian Eno, que também me fez lembrar Béla Tarr e alguns momentos do português André Gil Mata. O filme poderia estar emoldurado numa galeria, em loop, sugerindo uma ideia cíclica. Não precisa de um começo nem de um fim. Apenas de nos deixarmos estar.
A obra mais fascinante vem da Palestina. A Night We Held Between, de Noor Abed, não mergulha nos horrores da guerra, potenciados pelo genocídio promovido por Netanyahu. É algo bastante mais performativo e alegórico. Quase que se realiza num tempo sem tempo, mais passado ou futuro do que presente.
O filme parte de uma gravação musical intitulada Song for the Fighters, encontrada no arquivo sonoro do Popular Art Centre, na Palestina. Começa por um desfilar de memórias e pelo luto por um mártir, para se converter na urgência de resistir, através de elementos simbólicos inseridos numa tradição ancestral.
O cenário é uma paisagem desértica, uma espécie de espaço primordial e de raiz, onde os povos se juntam para se reconstruir. Filmado em 16 mm, com uma qualidade fotográfica e coreográfica deslumbrante, é um filme altamente místico e poético, de preservação da memória e projeção para o futuro. Uma sublime prova de existência e permanência através da arte.
