Duas eleições podem moldar de forma determinante o estado do mundo em 2027. Já neste domingo, decorre a segunda volta das presidenciais brasileiras, disputada entre o atual Presidente, Lula da Silva, à esquerda, e Flávio Bolsonaro, candidato da extrema-direita e filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro. As sondagens mostram um empate técnico, deixando o resultado em aberto. Pouco mais de uma semana depois, a 3 de novembro, realizam-se as eleições intercalares americanas, que poderão retirar ao Partido Republicano o controlo de uma ou de ambas as câmaras do Congresso, limitando a capacidade de ação de Trump. São disputas em contextos diferentes, atravessadas pelo uso estratégico e manipulatório das redes sociais, numa era em que os políticos se confundem com influencers e a contagem dos votos parece prolongar a dos seguidores.
Em Dragões, com estreia internacional no Doclisboa, Miguel Antunes Ramos disseca os vídeos que Jair Bolsonaro publicou no seu canal de YouTube ao longo dos anos. Olha-os de uma perspetiva semiótica, com os instrumentos de um cineasta. É um trabalho minucioso que procura perceber o fenómeno: a transformação imagética de um homem cinzento, conotado com a ditadura militar, num influencer capaz de arrastar multidões, dominando a câmara do telemóvel como meio de propaganda.
Os regimes fascistas tiveram os seus cineastas e souberam explorar o cinema como instrumento de comunicação e propaganda. Curiosamente, uma das investigações que envolvem Flávio Bolsonaro incide precisamente sobre o financiamento de Dark Horse, um filme sobre o pai.
Contudo, o cinema perdeu espaço enquanto arma de propaganda para a parafernália de imagens das redes sociais. Bolsonaro apercebeu-se disso no momento certo e explorou o terreno das imagens pixelizadas dos telemóveis de forma tão intuitiva quanto produtiva. De certa forma, é o seu próprio Goebbels, a sua própria Leni Riefenstahl: o proto-ditador torna-se o cineasta do seu próprio protorregime. Só que o seu cinema está longe da grandiosidade do da alemã. É um cinema pequenino e deliberadamente tosco, capaz de caber no bolso ou na palma da mão de uma imensa plateia flutuante.
Miguel Antunes Ramos não esconde o fascínio pela construção imagética de Jair Bolsonaro. Um fascínio obsessivo, movido pela vontade de entender e desconstruir os elementos que levaram à sua ascensão, reconhecendo-lhe uma inteligência intuitiva. Nunca o menospreza. Esse é um ponto relevante. O realizador mergulha no território imagético do inimigo para o descodificar e compreender enquanto fenómeno. É um movimento ousado e perspicaz: leva-o a sério e procura perceber os seus meandros, os seus esquemas, as suas motivações.
O filme nem sequer precisa de explicitar um posicionamento ou de se dedicar a desmascarar o ex-Presidente e as suas pródigas mentiras. No caso de Jair Bolsonaro, a exposição do seu discurso é suficientemente esclarecedora. Não é um fascista em pezinhos de lã. É um fascista com todas as letras, defensor da tortura, machista e misógino, que profere, sem pestanejar, as considerações mais atrozes contra a democracia.
Miguel Antunes Ramos parte da construção de um dos grandes mitos fundadores do Brasil: «Independência ou Morte!», o grito do Ipiranga, proferido por D. Pedro e imortalizado no quadro de Pedro Américo, exposto no Museu do Ipiranga, em São Paulo. O mito é encarado como uma construção que ultrapassa a realidade e acaba por se sobrepor. A pintura oferece uma encenação heroica do acontecimento, fixando uma imagem que se tornou indissociável da memória nacional. O uniforme dos Dragões da Independência, a guarda presidencial que dá título ao filme, baseia-se nas cores imaginadas por Pedro Américo no seu quadro, que não correspondem à realidade.
A análise de Antunes Ramos permite elaborar várias hipóteses. Uma das mais fascinantes diz respeito à importância da baixa definição. Jair constrói-se através de imagens pixelizadas em que mal se percebe o seu rosto. Transforma-se na multidão. É esse espaço coletivo que engrandece: o líder já nem precisa de estar em foco para permanecer na imagem. O «mito» ganha autonomia, torna-se um lastro que persiste para lá da sua presença. É também à luz dessa hipótese que podemos olhar para a votação de Flávio, que prolonga uma ideia sem sequer precisar de gravar vídeos diários, como fazia o pai.
Ligada a essa pixelização, há uma ideia quase de Big Brother. Ao contrário da tradição política, com a sua preparação especial para as câmaras, Bolsonaro representa uma categoria de políticos para os quais tudo continua quando as câmaras de televisão se apagam. Na verdade, a câmara nunca se apaga: o telemóvel assegura um direto permanente, em que a atenção se mede por seguidores e likes. Mesmo depois de eleito, Bolsonaro continua a produzir vídeos em busca de aprovação no Instagram. Revela-se tão patético quanto eficaz.
Nesta construção semiótica, o espetáculo também é a mensagem. A eficácia das imagens permite que posições políticas atrozes circulem sob a aparência de espontaneidade e proximidade. A defesa de torturadores ou de medidas prejudiciais à própria base eleitoral não impede a identificação com o líder. Como observa o realizador, a mensagem está a ser ouvida: é precisamente essa adesão que importa compreender.
Dragões é uma obra de extrema importância para desvendar o mundo contemporâneo. É também um fascinante objeto cinematográfico, construído com inteligência, que encara as filmagens do proto-ditador com a mesma seriedade com que se interpreta a simbologia de uma obra maior do cinema, mesmo quando a sua aparente rudeza e desmazelo parecem colocá-las nos antípodas do cinema enquanto arte.
