Dois documentários apresentados no Doclisboa permitem traçar um retrato amplo de Moçambique desde a sua independência, em 1975, até à atualidade. Os Continuadores da Revolução, de Pedro Neves, e Povo e Poder, de Ico Costa, poderiam ser alinhados, por esta ordem, numa sessão única de mais de quatro horas, pois complementam-se cronologicamente, apesar de serem de naturezas diferentes.
Pedro Neves faz um movimento de Portugal para Moçambique através das imagens de Manuel Roberto, um fotógrafo moçambicano que conheceu no Porto. Ico Costa já lá está: parte de Moçambique, país africano onde o realizador português encontrou a razão de ser do seu cinema na última década. Povo e Poder, assim como as suas obras anteriores, inscreve-se ainda mais claramente no cinema moçambicano do que no português (não que isso tenha maior relevância).
Os Continuadores da Revolução é narrado pelo próprio realizador. Conta, em voz off, a sua relação com Moçambique e com a revolução, partindo do Porto e da descoberta do fotógrafo Manuel Roberto. É algo forçado o recurso ao tom pessoal como dispositivo de enquadramento narrativo, procurando estabelecer uma analogia entre o filho da Revolução Portuguesa que é Pedro Neves (n. 1977) e o continuador da Revolução Moçambicana que é Manuel Roberto (n. 1965). É um gesto explicativo: o realizador sente a necessidade de dizer como ali chegou, naturalizando o seu movimento. Torna-se também um instrumento de diálogo: chega a Moçambique através do trabalho de um moçambicano, ouve-o e torna-o o fio condutor do filme. E o manancial é imenso: Manuel Roberto disponibilizou milhares de negativos.
Vale a pena conhecer o trabalho de Manuel Roberto através do filme. O fotógrafo acompanhou a turbulenta vida do país desde a independência, com um olhar muito próximo e transversal. Não se aventura apenas pelos terrenos da guerra e da miséria, mas capta também momentos simples, como crianças a brincar num parque.
«Continuadores da revolução» foi como Samora Machel apelidou as crianças do tempo da independência, investindo-as da responsabilidade de fazer cumprir as utopias. Moçambique nunca se cumpriu. E o filme não se esquiva a um posicionamento crítico, engajado, mostrando e refletindo sobre os caminhos do país, os desvios comprometedores em relação aos princípios basilares, a ausência de democracia, a fome, a guerra, as utopias traídas.
É um filme atento, que procura uma certa genuinidade, percorrendo parte do território e encontrando correspondências visuais entre as fotografias e as imagens do Moçambique atual. Deixa, contudo, o protagonismo às fotografias e ao fotógrafo, permitindo-se o realizador lançar um olhar mais subjetivo, por vezes até poético, sobre elementos contemporâneos.
Povo e Poder
Povo e Poder, por seu lado, é uma obra ainda mais ambiciosa. No romance inglês do século XIX, desenvolveu-se uma tipologia conhecida como «romance do estado da nação». São livros, normalmente longos, que, mais do que partirem do local para o universal, ambicionam desde logo um retrato amplo do país. Povo e Poder é, nesse sentido, um magnífico exercício de «filme do estado da nação». O pretexto são as eleições moçambicanas de 2024.
Ico Costa e a sua equipa percorrem o país de lés a lés, até às proximidades de Cabo Delgado, zona atualmente em guerra. O filme alcança essa abrangência, transmitindo a ideia de um retrato do país feito por quem tem consciência de estar a documentar um período de grande relevância histórica.
O título, Povo e Poder, remete-nos para As Armas e o Povo, filme coletivo português que captou nas ruas a Revolução de Abril de 1974, de forma muito espontânea e próxima. Ico Costa faz um filme com essa mesma proximidade. A câmara está no meio do povo. Interpela e escuta. O que realmente o move é a vox populi, as perspetivas da população sobre a realidade moçambicana, entre o desespero e as possibilidades de mudança.
Procura-se a pluralidade e a heterogeneidade. O filme de Ico não tem de obedecer a nenhuma comissão eleitoral, mas procura essa diversidade, tanto territorial como político-partidária. Observa e ouve apoiantes dos diferentes partidos, que, em termos gerais, se comportam como adeptos de clubes de futebol. Esse movimento acaba por ser absorvido pela própria realidade, perante a dimensão do fenómeno da candidatura de Venâncio Mondlane.
Mondlane tornou-se o grande líder populista, o mais sólido desafiador do poder instituído da Frelimo. Mais do que uma tomada de partido, é a realidade que se impõe: Mondlane conseguiu uma mobilização popular sem precedentes.
Já antes não havia uma imparcialidade total, embora o realizador não intervenha através de uma narração. O filme é intercalado com testemunhos e análises mais aprofundadas, que assumem uma postura crítica sobre os rumos do país. São vozes sóbrias daqueles que acreditaram genuinamente na revolução tal como Machel a preconizava, mas que se mostram desiludidos com os caminhos que tomou. O filme inclui ainda, como material de apoio, imagens de O Povo Oprimido, de Robert Van Lierop. Recorde-se que a Frelimo está à frente do governo moçambicano desde a independência, em 1975.
Há uma tomada de consciência da manipulação do poder pelo governo. Isso torna-se ainda mais flagrante no período pós-eleitoral. Observadores internacionais denunciaram diversas irregularidades e fraudes, apontando para a manipulação dos resultados a favor da Frelimo. Mondlane, a quem foram atribuídos pouco mais de 20 por cento dos votos, não aceitou o resultado das eleições e convocou, a partir do exílio, grandes manifestações. A repressão dos protestos provocou 389 mortos e 3500 feridos, além de 4300 detenções ilegais. O filme termina neste estado de sítio. Não vai mais longe porque, segundo o realizador, deixaram de estar garantidas as condições mínimas de segurança para prosseguir as filmagens.
Povo e Poder é um dos mais importantes filmes da história do cinema moçambicano. E provavelmente a mais relevante obra de Ico Costa, que filmou em Moçambique a ficção O Ouro e o Mundo e o documentário Balane 3.
