Porque é que The Critics nos devolvem a esperança no futuro do cinema

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Não, não se trata de um acesso despudorado de autovalorização do profissão de crítico. Os críticos têm um papel indispensável no ecossistema da arte, mas não é esse o assunto deste artigo. Falo antes, talvez também de forma exagerada, de The Critics, um coletivo de adolescentes nigerianos (que entretanto se tornaram jovens adultos), criadores de um canal no YouTube que se tornou viral não só na Nigéria, mas em todo o mundo.

Realizam curtas de ficção científica que partem do seu microcosmo para o espaço sideral. Têm tanto de documentação da realidade particular da vida em Kaduna, na Nigéria, como de transcendente. Têm tudo para se tornarem objetos de culto. E, de alguma forma, já se tornaram.

Embora possam revelar uma certa simplicidade ou ingenuidade no argumento, os filmes de The Critics não são objetos toscos ao estilo de Ed Wood. O investimento em efeitos especiais é sério e bem trabalhado, e não há nada de rudimentar nas filmagens, sobretudo nos filmes mais recentes. O único ponto em comum com aquele que ganhou o epíteto de pior realizador de todos os tempos é a ideia de uma paixão indomável pelo cinema.

Curtas como Ogun Ola: War Is Coming (2022), Redemption (2016) e Timothee (2021) são pequenas pérolas de sci-fi, algures entre Roger Vadim, Robert Rodriguez e Ousmane Sembène. Há uma âncora na realidade local e particular, que depois se desfaz ou se recompõe em superpoderes, imagens transcendentais, numa espécie de realismo mágico nigeriano em que o transcendente está disponível, desde o ponto de partida, para salvaguardar a realidade.

O gesto é também político em muitos dos seus elementos, numa reivindicação de um cinema visceral, adolescente, marcado pela vontade indomável de o fazer. E, em alguns momentos, de forma mais concreta, ao expor situações de injustiça social ou abusos de poder, num país com leis próprias.

A Nigéria, como se sabe, possui uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo. Nollywood produz milhares de filmes por ano e é frequentemente apontada como uma das maiores cinematografias em volume de produção. O grande sucesso recente de Nollywood foi Everybody Loves Jenifa, uma história atravessada por drogas e corrupção, envolvendo falsas organizações humanitárias. Há, efetivamente, uma grande escola de cinema popular na Nigéria.

O trabalho de The Critics, contudo, pouco tem a ver com isso. É uma exploração dedicada e amadora (no melhor sentido do termo) do cinema de género, com uma qualidade técnica assinalável e efeitos especiais conseguidos sem recurso à Inteligência Artificial. Os filmes, disponíveis gratuitamente no canal de YouTube, transbordam entusiasmo e paixão pelo próprio cinema. Tanto assim é que o canal se complementa com tutoriais do próprio grupo, nos quais se discutem técnicas ou, por exemplo, se explica a importância das bandas sonoras no cinema.

O brilho de The Critics foi tal que chamou a atenção de figuras internacionais. Uma das mais notáveis foi Morgan Freeman, que se apaixonou por aquela frescura de tal forma que não só emprestou a sua voz ao trailer de Ogun Ola: War Is Coming, como convenceu produtores a fazer uma doação de equipamento, proporcionando-lhes uma mais-valia técnica.

Também Susanne Pfeffer, diretora do MMK (Museum für Moderne Kunst), em Frankfurt, descobriu um potencial expositivo naquele coletivo e desafiou-o a ocupar algumas salas do museu que dirige.

Entretanto, a realizadora neozelandesa Pietra Brettkelly também se apercebeu do fenómeno e dedicou-se a fazer um documentário em conjunto com o próprio coletivo.

O documentário, que se estreou na Berlinale, acompanha de forma pertinente e sóbria os movimentos do grupo, passando por alguns momentos críticos, como a expulsão de um dos membros mais velhos por alegado assédio sexual ou a exposição em Frankfurt. O filme serve bem para mostrar a dinâmica e o profissionalismo de um grupo que, ao contrário do que possa parecer visto de fora, se leva muito a sério e demonstra uma capacidade autorreflexiva e até política.

A história de The Critics, tão bonita e genuína na sua origem, levanta ao mesmo tempo algumas questões. Eles já eram fenomenais antes de o Ocidente os descobrir. Mas parece ser sempre necessário um aval ocidental — seja o de um produtor americano, seja o de uma galeria alemã — para que ocorra uma verdadeira validação. É como se apenas o Ocidente possuísse os selos de qualidade.

Brettkelly é particularmente feliz no desfecho do filme que correaliza com The Critics. Não cai no erro de o terminar no auge do sucesso na Alemanha, ou em Paris, onde um dos elementos consegue um contrato com uma editora discográfica. Faz questão de voltar à Nigéria.

Voltam todos à Nigéria para procurar um crocodilo que nunca chega a aparecer. Um crocodilo que é memória, essência primordial nigeriana, a (in)genuinidade dos seus projetos. O crocodilo é tudo aquilo que The Critics não podem perder de vista.

Mesmo para quem não adora a ficção científica mais kitsch, o seu entusiasmo contagiante é uma esperança para o futuro do cinema.

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